C
Cabecêro.s.m. Corrutela
de cabeceiro, derivado de cabeça do latimcapitiu.Cabeceiro designa
o capoeira que usa, com frequência, golpes com a cabeça.
Ex:
Quis me
matá
Iê, quis me matá
Camarado
Na
falsidade
Iê, na falsidade
Camarado
Faca de
ponta
Iê, faca de ponta
Camarado
Sabe
furá
Iê, sabe furá
Camarado
Ele
é cabecêro
Iê, êle é cabecêro
Camarado
E
mandinguêro
Iê, ele é mandinguêro
Camarado
No campo de
batalha
Iê, no campo de batalha
Camarado
Viva meu
mestre
Iê, viva meu mestre
Camarado
Que me
insinô
Iê, que me insinô
Camarado
A
madrugada
Iê, a madrugada
Camarado
Da
capoêra
Iê, da capoêra
Camarado
Cabôco.s.m. Corrutela
de caboclo, de origem ainda controversa.O vocábulo significa o
nascido de pai indígena e mãe africana.
Ex:
Tim,
tim, tim Aluandê
Aluande cabôco é
mungunjê
Tim, tim,
tim Aluandê
Aluanda,
Aluanda, Aluandê
Tim,
tim, tim Aluandê
Aluanda
hoje é ferro de batê
Tim,
tim, tim Aluandê
Eu
cheguei lá in casa
Não
vi vosmicê.
Cabra.s.f. Do
latim capra.No
Brasil o vocábulo, além de ser designativo de um animal, é também
o domulato escuro e
do indivíduo agressivo e de mau caráter. Esse tipo de gente sempre
inquietou a segurança pública.
Ex:
Na
justa lei da região
Cabra conhece o perigo
Do
cotuvelo pra mão
O
diabo tem cinqüenta dente
Vinte e cinco são de prata
Vinte e
cinco so de latão.
Cabula. s.m. Nome
de um bairro de Salvador. De origem ainda desconhecida. Esse bairro
foi refúgio de negros africanos e até hoje está lá a marca de
suas presenças, com os inúmerosos candomblés, sobretudo os de
“nação Angola”, que possuem um toque chamado cabula,
daí a provável origem do nome do bairro.
Ex:
Chora
minino
Nhem, nhem, nhem
O minino e
chorão
Nhem, nhem, nhem
Sua mãe foi
pra fonte
Nhem, nhem, nhem
Ela foi
pro Cabula
Nhem, nhem, nhem
Foi comprá
jaca dura
Nhem, nhem, nhem
Da cabeça
madura
Nhem, nhem, nhem
O minino
chorão
Nhem, nhem, nhem
Choro qué
mamá
Nhem, nhem, nhem
Cachaça. s.f. Designa
aguardente.
Ex:
Oi i oi i
Você
tem cachaça aí
Oi i oi
i
Você tem cachaça aí
Oi i oi
i
Você tem mais não qué dá
Oi i oi
i
Ferro grande é meu facão
Oi i oi
i
Dente de onça é môrão
Oi i ôi
i
Aranha Caranguejêra
Oi i oi i
E
o cavalo do cão
Oi i ôi
i
Você tem cachaça aí
Oi i oi
i
Você tem mas não qué dá.
Caco
Velho. s.m. Nome
próprio personativo. Apelido com acepção jocosa.
Ex:
Não
se mêta meu irmão
Qui esse home é valente
Na usina Caco
Velho
Já matô Chico Simão
Vamo
imbora camarado
Vamo saí dessa jogada
A festa é muito boa
Mas
vai tê muita pancada.
-
Caetano.s.m. Nome
próprio personativo. Leite de Vasconcelos diz que Caetano está
por Caietano, este do latim Caietanus,
habitante de Caieta, na Itália.
-
-
Ex:
-
Cobra mordeu São
Bento, Caetano
Cobra
mordeu São Bento, Caetano
-
-
Calumbi. s.m. Corrutela
de caá-r-umby,
a folha apinhada, arroxeada, o anel. Designa
uma planta leguminosa (Mimosa asperata, Linneu).
-
-
Ex:
Meu braço tem meia libra
Ferro
grande é meu facão
Não
respeito calumbi
Tando cá foice na mão.
Camará. s.m. Corrutela
de camarada. No linguajar da capoeira aparece
com a acepção pura e simples de companheiro.
Ex:
Camarado
toma cuidado
Camaradinho ê
Camaradinho, camará
Camaradinho
ê
Camaradinho, camará
Capoera qué te matá
Eu
não posso apanhá
Camaradinho ê
Joga pra traz.
Camboatá.s.m. Designa
uma qualidade de peixe pequeno que vive em Agua doce (Silurus
callichthys, Linneu).
Camunjerê.Termo
desconhecido na sua origem e na sua acepção.
Candomblé.s.m. Termo
de origem ainda desconhecida. Designa a religião que os africanos
trouxeram para o Brasil.
Ex:
Não
gosto de candomblé
Que é festa de feticêro
Quando
a cabeça me dói
Serei um dos primêros
Procópio
tava na sala
Esperando santo chegá
Quando chegou seu
Pedrito
Procópio passa pra cá
Galinha
tem fôrça n'asa
O galo no esporão
Procópio
no candomblé
Pedrito é no facão
-
Cantá. v. Corrutela
de cantar.
- Ex:
- Riachão tava cantando
Na cidade
de Açu
Quando apareceu um nêgo
Como a espece de ôrubú
Tinha
casaca de sola
Tinha calça de couro cru
Beiços grossos
redrobado
Da grossura de um chinelo
Tinha o ôlho
incravado
Outro ôlho era amarelo
Convidô Riachão
Pra cantá o
martelo
Riachão arrespondeu
Não canto cum nêgo
desconhecido
Ele pode sê um escravo
Ande por aqui fugido
Eu
sô livre como um vento
Tenho minha linguagem nobre
Naci
dentro da pobreza
Não naci na raça pobre
Que idade tem
você
Que conheceu meu avô
Você tá parecendo
Que é mais
môço do que eu.
- Cão.s.m. Aparece
documentado na língua portuguesa, no ano de 1152, nos Portugaliæ
Monumenta Historica, no volume
dos Leges et
Consuetúdines, designando o
animal.Aparece com a acepção de demônio.
- Ex:
- Oi quem é esse nêgo
- Dá,
dá, dá no nêgo
O no
nêgo você não dá
Este
nego é valente
Este
nêgo é valente
Este nêgo é o cão.
- Ca
ô cabiesi.Corrutela
de Ka wo ká
biyè sí, expressão
com que os povos nagôs saúdam Xangô, deus do fogo e do trovão e
que segundo Johnson foi o quarto rei lendário de Oyó, capital dos
povos iorubás.
- Ex:
- Acabe
co’êste Santo
Pedrito
vem aí
Lá
vem cantando ca
o cabieci
Lá
vem cantando ca
ô cabieci.
-
Capoêra. s.f. Corrutela
de capoeira.
Ex:
Quis me
matá
Iê, quis me matá
Camarado
Na
falsidade
Iê, na falsidade
Camarado
Faca de
ponta
Iê, faca de ponta
Camarado
Sabe furá
Iê,
sabe furá
Camarado
Ele é
cabecêro
Iê, êle é cabecêro
Camarado
E
mandinguêro
Iê, ele é mandinguêro
Camarado
No campo de
batalha
Iê, no campo de batalha
Camarado
Viva meu
mestre
Iê, viva meu mestre
Camarado
Que me
insinô
Iê, que me insinô
Camarado
A madrugada
Iê,
a madrugada
Camarado
Da capoêra
Iê,
da capoêra
Camarado
Carcunda.
s.f. De
origem duvidosa. Na
Bahia, a forma mais corrente é corcunda.
Ex:
Carcunda
onte teve aqui
Deu dois minréis a papai
Três minréis a
mamãe
Café e açuca a vovó
Dois vintém para mim só
Sim sinho meu
camarada
Quando eu entrá você entra
Quando eu saí você
sai
Passá bem ou passá má
Tudo no tempo é passá.
Carrapato.
s.m. De
origem incerta.
Ex:
Minina vamo pro
mato
Vamo catá carrapato
Minina vamo pra sala
Levá
pulga da senzala
Minina vamo pra
cama
Vamo catá percevejo
Minina vamo pro mangue
Vamo catá
caranguejo.
Chamá.
v. Corrutela
de chamar.
Ex:
Cabôco
do mato vem cá
O
meu berimbau
Mando
lhe
chamá.
Chico
Simão. s.m. Nome
próprio.
Ex:
Não se mêta
meu irmão
Qui esse home é valente
Na usina Caco Velho
Já
matô Chico Simão
Vamo imbora
camarado
Vamo saí dessa jogada
A festa é muito boa
Mas vai
tê muita pancada.
Chique-Chique
s.m. Espécie de
planta da família das leguminosas (
Crotalaria
braclysacha, Benth). De origem desconhecida.
Ex:
Chique-chique
mocambira
Mandacaru
parmatória
A
mulé quando não presta
O
home manda imbora
O
qui foi qui a nêga disse
Quando
viu a sinhá
Uma
mão me dê me dê
Outra
mão de cá dê cá.
-
-
Chita
s.f. Designa uma espécie
de tecido.
- Ex:
- Iê
São
três coisas nesse mundo
Qui
meu coração palpita
E
um berimbau banzêro
Uma
morena donzela
E
seu vistido de chita.
-
Chotão
s.m. Diz-se do burro que
tem o passo incerto, saltiante.
- Ex:
- São
quanta coisa no mundo
Que
o home lhe consome
Uma
casa pingando
Um
cavalo chotão
Uma
mulé ciumenta
E
um minino chorão
Tudo
isso o home dá jeito
A
casa ele retelha
O
cavalo negoceia
O
minino a mãe calenta
Mulé
ciumenta
Cai
na peia.
-
Caiman
s.m. De origem incerta.
- Ex:
- Qui
vai caiman
Caiman
caiman
Qui
vai caiman
Para
ilha de Maré
Caiman,
caiman, caiman.
-
Cocorocô
Voz onomatopeica emitida pelos
galos.
- Ex:
E
aquinderreis
E aquinderreis
Camarado
E galo cantô
E
galo cantô
Camarado
E cocorocô
E
cocorocô
Camarado
E vamo imbora
E
vamo imbora
Camarado
E mundo afora
E
mundo afora
Camarado
E vorta do
mundo
E vorta do mundo
Camarado
E qui mundo
dá
E qui mundo dá
Camarado
E qui mundo
tem
E qui mundo tem
Camarado.
-
Coité
s.m. Nome próprio
designativo de uma localidade no Estado da Paraíba.
- Ex:
- Riachão
stava cantando
De
Coité
a
Pimentêra
Quando
apareceu um nêgo
Dizendo
desta manêra
Você
disse que ama a Deus
O
teu Deus te enganô
Salomão
ele fez rês
São
Pedro sempre soldado
Fez
um rico outro pobre
Outro
cego outro alejado
Salomão
ele fez rês
porque
ele merecia
São
Pedro um simples soldado
Porque
a ele lhe cabia
Fez
um rico outro pobre
Visso
tudo Deus sabia.
-
Colongolô
.Termo desconhecido na sua origem e
na sua acepcão.
- Ex:
- Calangolô,
tá como passo
Calangolô,
ta como passô.
-
Comade.
s.m. Corrutela
de comadre. Com a acepção de padrinho e madrinha
extensiva às pessoas idosas, que desfrutam de certa intimidade na
família, como ocorre no Brasil com as expressões compadre comadre,
funcionando como tratamento respeitoso.
- Ex:
Oi a casca da
cobra
Sinhô Sao Bento
O que cobra
danada
Sinhô São Bento
O que cobra
malvada
Sinhô São Bento
Buraco
velho
Sinhô São Bento
Oi o pulo da
cobra
Sinhô São Bento
E cumpade.
-
Convidô.v. Corrutela
de convidou, do verbo convidar.
-
Ex:
- Riachão
tava cantando
Na
cidade de Açu
Quando
apareceu um nêgo
Como
a espece de ôrubú
Tinha
casaca de sola
Tinha
calça de couro cru
Beiços
grossos redrobado
Da
grossura de um chinelo
Tinha
o ôlho incravado
Outro
ôlho era amarelo
Convidô
Riachão
Pra
cantá o martelo
Riachão
arrespondeu
Não
canto cum nêgo desconhecido
Ele
pode sê um escravo
Ande
por aqui fugido
Eu
sô livre como um vento
Tenho
minha linguagem nobre
Naci
dentro da pobreza
Não
naci na raça pobre
Que
idade tem você
Que
conheceu meu avô
Você
tá parecendo
Que
é mais môço do que eu.
-
Cortá.
v. Corrutela de cortar.
-
Ex:
Esse home é
valente
Sei sim sinhô
Ele sta com a
navalha
Sei sim sinhô
Ele vai lhe
cortá
Sei sim sinhô
O muleque é ligero
Sei sim
sinhô
Ele vai lhe
pegá
Sei sim sinhô
Cuidado com
ele
Sei sim sinhô
Ele qué lhe
matá
Sei sim sinhô
-
Cu.
s.m. Com este vocábulo,
o povo ora designa o orifício do intestino, comummente conhecido
por ânus, ora as partes traseiras em que o homem ou animal se
apóiam para sentarem, também chamadas nádegas ou bunda,
termo africano tão popular quanto a palavra cu.
- Ex:
Na minha casa
veio um home
Da espece dos urubus
Tinha camisa de sola
Paletó
de couro cru
Faca de ponta no cinto
Rabo cumprido
no cu
Os beiço grosso e virado
Como sola de chinelo
Um
zóio bem encarnado
Outro bastante amarelo.
-
Cum.
prep. Corrutela de com.
-
Ex:
- Riachão
tava cantando
Na
cidade de Açu
Quando
apareceu um nêgo
Como
a espece de ôrubú
Tinha
casaca de sola
Tinha
calça de couro cru
Beiços
grossos redrobado
Da
grossura de um chinelo
Tinha
o ôlho incravado
Outro
ôlho era amarelo
Convidô
Riachão
Pra
cantá o martelo
Riachão
arrespondeu
Não
canto cum
nêgo desconhecido
Ele
pode sê um escravo
Ande
por aqui fugido
Eu
sô livre como um vento
Tenho
minha linguagem nobre
Naci
dentro da pobreza
Não
naci na raça pobre
Que
idade tem você
Que
conheceu meu avô
Você
tá parecendo
Que
é mais môço do que eu.
-
Cumi.
v. Corrutela de comi do
verbo comer.
-
Ex:
No tempo que eu
tinha dinhêro
Cumi na mesa cum yoyô
Cumi na
mesa cum sinhá
Agora dinhêro
acabó
Capoêra qué me matá.
-
Cumpade.
s.m.Corrutela de compadre.
-
Ex:
Esta cobra te
morde
Sinhô São Bento
Oi o bote da
cobra
Sinhô São Bento
Oi a cobra
mordeu
Sinhô São Bento
O veneno da
cobra
Sinhô São Bento
Oi a casca da
cobra
Sinhô São Bento
O que cobra
danada
Sinhô São Bento
O que cobra
marvada
Sinhô São Bento
Buraco
velho
Sinhô São Bento
Tem cobra
dentro
Sinhô São Bento
Oi o pulo da
cobra
Sinhô São Bento
E cumpade.
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REGO, Waldeloir. Capoeira Angola – Ensaio sócio-etnográfico. Salvador:Editora Itapoan,1968