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segunda-feira, 10 de abril de 2017

A palavra do Mestre - Graduações - Parte 4



Mais uma semana e mais seis mestres opinam aqui no Blog sobre as graduações. Nas semanas anteriores tivemos a opinião do Mestre Alexandre Batata, na parte 1. Na  parte 2 opinaram Mestre Goioerê, Mestre Linguiça, Mestre Preguiça, Mestre Cid , Mestre Ron e Mestre Kaco. Semana passada, na parte 3, foi a vez dos mestres Catitu, Chacal, Caçapa, Namorado, Buiu e Franja falarem sobre o tema. Hoje tem  alguns trechos de entrevistas antigas e também opiniões recentes, vamos conferir?


Mestre Gato – Senzala


"Sou de opinião de que as escolas de Capoeira são como escolas de samba, cada uma tem seu sistema e essa liberdade deve permanecer. É uma arte popular, não deve ser padronizada."*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Maio de 2013. Íntegra da entrevista aqui.






Mestre Polaco – São Bento Pequeno


"Na minha opinião é perfeitamente viável uma graduação única na capoeira, basta boa vontade, humildade e consenso entre as correntes(corda e cordel)."*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Abril de 2012. Íntegra da entrevista aqui.




Mestre Celso – Engenho da Rainha


"A Federação criou o cordel e foram chamadas pessoas de outros grupos, que moravam na Zona Sul, para participar das reuniões. Eles foram, mas resolveram sair fora e criaram a corda. O capoeirista é vaidoso, ele é mentiroso, ele tem vários defeitos.
O aluno não tem capacidade pra determinadas coisas, aí ele sai do grupo e sem condição de ensinar, sem nada ele monta seu próprio grupo e de repente ele inventa uma moda nova. Daqui a pouco nem corda, nem cordel, vão usar barbante. E tudo que ele faz, faz pra desmoralizar a própria capoeira. Por isso a capoeira não está organizada. Eu tenho viajado o mundo todo, o cara sai daqui do Brasil é aluno e lá fora ele bota uma graduação. Pra organizar a capoeira eu acho que tinha que ser gente de fora, que gosta, mas que não treina, não participa. Porque senão cada um defende o seu interesse e fica difícil organizar."*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Maio de 2011. Íntegra da entrevista aqui.





Mestre Boneco – Capoeira Brasil


"Acho sim, muito importante que todos os grupo venham um dia a ter uma única graduação. Só que e um trabalho muito delicado, pois todos nos teríamos que ceder de uma forma ou de outra!"*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Abril de 2011. Íntegra da entrevista aqui.







Mestre Cobra Coral – Capoeira Terranossa

"Acredito que as cordas profissionais deveriam ser sim padronizadas em uma cor única, melhorando assim a identificação em nível mundial. Já as graduações infantis e as graduações adultas, até a última corda antes de graduado, poderiam ficar a critério de cada escola com seu próprio sistema interno. Mas de Graduado em diante, que já é considerado um profissional de Capoeira, sim, todas as graduações (Cordas), profissionais deveriam ser unificadas e padronizadas em uma única cor e um único entendimento em nível mundial."




Mestre Cid – Afro Angola Congo Capoeira

"Até acho que deveria ser padronizado, mas vejo isso como um fato histórico, já que vieram africanos escravizados de diversas partes da África, de etnias diferentes. Então, era a forma que foi encontrada de misturar africanos de etnias diferentes, falando dialetos diferentes até para causar o não entendimento entre eles. Era a estratégia que eles usavam, para poder matar a raiz do africano aqui. Então, a gente tem que aceitar porque são escravizados que vieram de etnias diferentes, de lugares diferentes, falando dialetos diferentes, por isso essa confusão de cores e graduações.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A palavra do Mestre - Graduações - Parte 3



Hoje nós temos a terceira parte da série sobre graduações que começamos aqui no Blog. Caso você tenha perdido, na Parte 1 o Mestre Alexandre Batata deu uma verdadeira aula sobre as graduações na Capoeira, desde os primórdios até os dias de hoje. Já na Parte 2 , temos a opinião de 6 grandes mestres sobre o tema.

Vamos lá?




Mestre Catitu – Herança Cultural

"Desde que me conheço como capoeira ouço falar em unificação e padronização no sistema de graduação. 
Na minha visão seria muito importante e interessante a padronização única da graduação, mas, por outro lado, vejo que a capoeira é muito mais forte do que qualquer tipo de padrão imposto!
Sua diversidade, raízes e tradições se entrelaçam e isso acaba sendo muito mais forte de que qualquer coisa imposta.
O que me deixa triste é a criação exacerbada, sem origem e fundamento nas graduações que vem surgindo a cada dia!"








A imagem pode conter: 1 pessoaMestre Chacal – UBADAC

"Na minha opinião tinha que existir apenas dois sistemas de graduação: corda, do sistema mais antigo, que é a senzala e cordel, do sistema do Mestre Mendonça. Mas o que acontece é que cada grupo que é montado com pessoas desqualificadas inventa uma graduação, porque não pode seguir o sistema que já existe porque vai ser criticado. O cara sai de um grupo corda azul de graduado e quando encontramos ele novamente ele está com uma corda, exemplo, roxa e laranja, aí fala que é a corda de professor do grupo dele, porque se ele colocar marrom a galera vai criticar e a roxa e laranja ninguém entende e sabe o que é, aí ele passa batido nas rodas. Esse é o meu ver.
Enquanto alguns, veja bem, alguns Mestres antigos apoiarem esses meninos que ficam sem Mestres porque não querem seguir uma orientação e acham que sabem tudo, a Capoeira vai ficar essa bagunça. Cada menino que sai do seu grupo, monta um grupo, cria uma graduação maluca e tem um Mestre que vai lá e apoia.
Hoje chego nas rodas e não sei mais quem é Mestre e quem é aluno, porque em um grupo a corda é de Mestre e no outro grupo a mesma corda é de aluno."



Mestre Namorado – Ibamolé Capoeira

"Eu acho esse assunto polêmico. Assim como a própria história da Capoeira tem suas “vertentes ou versões”, as tradições regionais  (angola, regional, capoeiragem) desde seu início existiram caminhos diferentes, maneiras, hierarquias, heranças culturais e pontos de vistas variados. Como unificar, padronizar as graduações? Quem cederia? Dos milhares de grupos, qual tem razão e por que? A Senzala vai mudar sua graduação, Muzenza, Abadá, Capoeira Brasil, quem daria o braço a torcer? 
Teria que existir um grande congresso, com seminários, palestras, muita resenha, historiadores respeitados, líderes da Capoeira, estudiosos, um grande debate teria que ocorrer. Aqui é Brasil, todos querem priorizar seus próprios interesses, crenças, ideais. 
A Capoeira é rica, vasta, possui contextos lúdicos, pedagógicos, culturais, esportivos, eu, particularmente cederia a uma grande mudança, verdadeiramente discutida e votada pela  “tribo” da Capoeira. Uma decisão dessas engloba existir uma grande federação, associações sérias e preparadas, coisas distantes. A Capoeira é a cara do Brasil, cheia de jeitinhos, política, apadrinhamentos, interesses diversos, corrupção e etc. 
Não vejo tão cedo existir a tal unificação. A vaidade é mais um contratempo."


A imagem pode conter: 2 pessoas
Mestre Buiu – Rede Anca


"Na minha opinião deveria sim, com certeza. Como forma de respeito a nossa arte, como ética esportiva, para que nossa arte tenha um pouco mais de respeito nos seus fundamentos, deveria. Penso dessa forma, as graduações devem ser unificada sim para um bem maior de toda a massa capoeirista."





Mestre Caçapa – Capoeira Terranossa

"Hoje na Capoeira tem muita gente querendo ter sem poder e gente dando sem ter. Banalização total da Capoeira e de seus fundamentos. A maioria dos mais antigos apoiam isso e não estão dando valor a sua própria história. Estão apadrinhando grupos, ex-alunos e alunos dos outros, com isso as graduações tomam formas e cores diversas, sem controle. Seria bom um sistema único de graduação, mas, com isso, vem várias outras questões. Resumindo, a Capoeira está perdendo o controle, o dinheiro está falando mais alto, o capoeirista está perdendo o sentimento, o coração já não bate mais como antes. Eu estaria disposto a seguir um padrão universal."



Mestre Franja – Rede Anca

"Essa variedade de graduações que tem na Capoeira é bem característico. Só capoeirista que consegue entender esses sistemas e leva tempo para você aprender. Como somos diferentes das outras artes, não tem nada de parecido com a Capoeira nas outras artes, as pessoas acabam entendendo que é uma coisa pejorativa e, na realidade, eu acho até bom, porque só consegue entender essa variedade quem é da Capoeira há muito tempo, que se dedica e realmente quer entender a Capoeira. Não vejo problema nenhum, pelo contrário, acho isso bacana, não acho pejorativo. Cada um tem a liberdade de usar a graduação que quer. Perante as outras lutas somos novos ainda, não dá para comparar. A Capoeira tem uma organização diferente, começa pela roda, pela musicalidade, não dá pra ficar comparando. Geralmente quem fala sobre esse monte de graduações compara com outras lutas, que possuem uma só graduação. Muitos querem que tenha um sistema só, mas eu acho que como a Capoeira, ela não é de uma pessoa só, não é só de uma maneira, ela tem a cara do brasileiro, somos diversos.
Não entendo no que vai melhorar a Capoeira em ter um sistema único de graduação ou se eliminar a graduação. Quando você unifica, ou padroniza, a Capoeira perde muito com isso. A Capoeira foi feita como uma luta de libertação, é livre, é liberta, a Capoeira é para se libertar e no momento que você padroniza ou unifica só em um sistema a gente está cortando todas as vantagens que a Capoeira tem sobre as outras artes. Eu não gostaria que acontecesse isso nunca na Capoeira. Talvez eles pensem que unificando a graduação seria uma maneira de organizar a Capoeira e eu não acredito nessa ideia. A Capoeira tem uma organização única e exclusiva dela, que não dá pra gente comparar com as outras. Então, unificar, colocar regra, ou um único sistema, a gente como capoeirista vai perder muito com isso e não vai somar nada para que a Capoeira se torne mais do que ela é. Isso não significa que não devamos nos organizar. Organizar não quer dizer padronizar, nem unificar, significa melhorar o que já existe, ou dar novos rumos para aquilo que já existe, que é a Capoeira. Lembrando que essa é a minha opinião e não a da Rede Anca, dentro da instituição também temos esse conflito, uns querem, outros não."



segunda-feira, 27 de março de 2017

A palavra do Mestre - Graduações - Parte 2


Na semana passada publiquei um texto escrito pelo Mestre Alexandre Batata, que aborda esse tema de uma forma bem completa, se você não leu, comece por ele.
Hoje, mais seis mestres opinam sobre o assunto. Vem comigo!


A imagem pode conter: 1 pessoa
Mestre Goioerê – Grupo Muzenza


"Realmente ficou muito confuso tantos grupos com tanto sistema de graduação, e fica cada vez pior, todo mundo sai de grupo cria grupo, novas graduações, as vezes muitos não tem nem título de professor de capoeira, geralmente muitos fazem isso porque não querem seguir normas regras do grupo que já tem um padrão, status, aí criam um novo grupo e automaticamente criam um monte de novas regras e fica pior que tava. Vendo por esse lado me deixa muito triste, isso atrasa muito a capoeira, deixa muito longe de ser uma arte organizado e uma vez por não ser organizada se torna muito mais difícil em ter apoio e suporte de entidades competente. No meu ponto de vista seria muito bom se a capoeira seguisse um sistema único de graduação como temos no judo, e jiu jitsu. Hoje você chega em uma roda você não sabe quem é o mestre ou quem é o aluno, muito confuso. Acho que esse é o desejo de muitos capoeiristas, ter uma unificação no sistema de graduação da nossa capoeira. Enquanto os capoeiristas, na escala de cima para baixo ("grandes mestres") não se conscientizar, vamos estar andando para trás."


Mestre Linguiça – Arte de Bamba

"Nossa arte é livre e como cultura se propaga através dá oralidade e do fazer. Então, na minha há opinião, mais importante que as cores e o material usado para identificação das graduações, seria a autenticação dos títulos, ex: Instrutor, Professor, Contramestre e Mestre. Desta forma o que teria maior significância seria os títulos e não as cores e os materiais usados. Mas independentemente dá variação de cores, materiais e formatos, nossa arte é mágica e agregadora e esse é apenas uma das várias outras questões atribuídas a nossa linda e maravilhosa arte."




Mestre Preguiça – Iê Capoeira

"Quando comecei a capoeira em 1978 só existiam 2 tipos de graduação, a graduação da federação, criada pelo mestre Mendonça, em 1972, que era as cores da bandeira do Brasil
E as outras graduações eram da senzala corda vermelha. Agora fizeram  uma bagunça  danada com as graduações. É uma pena."





A imagem pode conter: 1 pessoaMestre Cid – Capoeira Terranossa

"Antigamente existiam dois tipos de graduações, cordel, que eram as cores da bandeira do Brasil e corda, que era a linhagem da Senzala. Não tinha muito mistério. Com o passar do tempo, com a vaidade dos homens, o que aconteceu? Foram criando graduações e graduações, misturando as cores, uma vaidade. Um dia o cara tá no seu grupo, aí ele sai e faz um grupo para ele e cria uma nova graduação. Acho que nunca vai conseguir padronizar. Se conseguisse voltar como era antigamente com apenas dois tipos de graduação, corda e cordel, mas é muito difícil por conta da vaidade dos homens que é muito grande."


Mestre Ron – Raízes de Vila Nova

"Eu acredito que as graduações deveriam sim ser padronizada. No mínimo isso mostraria um pouco de organização dos capoeiristas, mas sei que dificilmente isso possa acontecer. Hoje existem muitas potências na capoeira que impedem essa unificação.
O número de grupos criados dificulta e muito que se chegue a um acordo. Poucos abririam mão da sua razão em relação a sua graduação.
Se, de repente, essa unificação trouxesse benefícios para os representantes de cada grupo, talvez se pudesse pensar na ideia. Teria que se fazer um estudo, para isso teríamos que ouvir os mestres que lideram os grandes grupos. O negócio é que ninguém vai largar mão de nada se não tiver algum beneficio. Infelizmente é desse jeito."


Mestre Kaco – Rede Anca

"Eu acho que, no momento atual, já se faz necessário unificar. As pessoas já vivem imitando umas às outras. Sendo assim, não vejo problema algum!"

terça-feira, 21 de março de 2017

A palavra do Mestre - Graduações - Parte 1



Uma das grandes discussões dentro da Capoeira é a questão da graduação. Muitas escolas desenvolveram seu próprio sistema, outras adotam o sistema de cordéis criados por Mestre Mendonça, há também o sistema da ABCP - Associação Brasileira dos Professores de Capoeira e não ter uma unificação ainda causa muita confusão. É aluno tirando mestre no jogo de compra, mestres sendo formados sem merecimento/tempo/história, grupos com sete graduações, outros com 20, nomenclaturas diferentes como grão-mestre, mestre mór, mestríssimo, enfim, ter um só padrão hierárquico facilitaria, mas é só isso?


Na semana passada enviei para alguns mestres a seguinte pergunta:  O que o senhor pensa sobre os diversos sistemas de graduação existentes da capoeira? A graduação deveria ser padronizada para todos os grupos?

A primeira postagem da série é especial, um panorama geral sobre as graduações ao longo da história da Capoeira. Com a palavra, Mestre Alexandre Batata:


A imagem pode conter: 1 pessoa
"Maíra Gomes perguntou:

– Mestre, estou fazendo uma pesquisa, o senhor acha que os capoeiristas deviam usar a mesma graduação?

Aí... eu respondi:

– Queria poder responder a tua pergunta com um simples sim ou não, porém, pelo carinho que tenho por seu lado de investigadora (jornalista), resolvi abordar o tema.

Este assunto vem em bom momento histórico, a morte do Mestre Damianor de Mendonça. Vamos a história!

Poderia começar lá nos tempos ancestrais, da proposta no sistema hierárquico tribalista, onde o tempo por si só determinava o respeito: criança, jovem, adulto e velho, mas vou dar um pulo e vamos ao século XIX.

As maltas cariocas, aquelas da época descrita como A ERA DOS VALENTÕES por alguns historiadores, tinham um sistema de nomenclatura hierárquico. As crianças, que já tinham algumas funções na malta, eram os CARRAPETAS. Os adultos eram CAXINGUELES, CAPOEIRA AMADOR, CAPOEIRA PROFISSIONAL e CHEFE DE MALTA. Perceba na hierarquia adulta os quatro tempos.

Mestre Bimba, aquele famoso baiano que em mais uma estratégia sincretista da capoeira criou a LUTA REGIONAL BAIANA, criou um sistema de graduação com QUATRO LENÇOS.

Durante a ditadura militar, com Presidente da República General Garrastazzu Médici. período mais agudo da Ditadura Militar, em 1968 havia sido publicado o Ato Institucional número 5, que suspendia direitos políticos, institucionalizava a censura e dava amplos poderes ao governo militar. Foi entre os anos de 1968 e 1973 também que o Brasil viveu o chamado Milagre Econômico, período no qual o país cresceu economicamente em níveis altos.

Havia um lema: BRASIL, AME-O OU DEIXE-O!

A capoeira em mais um sincretismo político entra nos “moldes”. Se filia ao Conselho Nacional de Desporto através Confederação Brasileira de Pugilismo e nos estados passa a ser dirigida pelas Federações de Pugilismo. Se não me engano, Rio, São Paulo e Bahia.

No Rio de Janeiro, Mestre Damianor de Mendonça criou o sistema de graduações de cordéis, nove fios trançados em três, cada três representava uma trindade. Não me recordo bem mas uma delas era O PAI,O FILHO E O ESPÍRITO SANTO. A ditadura era católica e para representar a hierarquia usa as cores da bandeira Brasileira, ou seja, do pavilhão nacional: verde, amarela, azul e branco. Olha os 4 de Novo. Tudo na mais perfeita ordem e progresso. 

Uma curiosidade


A graduação era verde, verde e amarelo, amarelo, azul e amarelo, azul (Instrutor) verde -amarela-azul.(Contramestre) branco e verde ( 1º Grau de Mestre) , branco e amarelo (2º Grau de Mestre, 10 anos de Mestre), branco e azul (3º Grau de Mestre, 20 anos de Mestre) e o branco (3º e último estágio, 30 anos de Mestre).

No Rio de Janeiro foram graduados: Mestre Artur Emídio (CORDEL BRANCO), Mestre Djalma Bandeira cordel (Branco e azul), Mestre Luiz Américo – Mintirinha (CORDEL BRANCO E AMARELO) e a todos os outros Mestres, o CORDEL BRANCO E VERDE.

Mas, no começo dos anos 1980, surgem as federações de Capoeira. Aí bagunçou. Eu explico:

Com o intuito de formar uma Confederação Brasileira de Capoeira. As federações convidam todos os capoeiras a prestarem exames, criam-se seminários, palestras, cursos e outros blá-blá-blás.

Havia uma ameaça que os professores de Educação física tomassem o monopólio, conversa fiada. A capoeira estava engatinhando, já era matéria na Universidade Federal do Rio de janeiro e mais tarde na Gama Filho (particular).

Vamos falar do Rio, tá?


Na Primeira banca examinadora, mestres já renomados se predispuseram a colaborar. Provas escritas, exames de competência, alguns discordaram, mas a maioria participou. Parecia que ia funcionar.

Até então havia uma ética, os mestres sabiam quem era quem.

Como diz o Mestre Bocka: “Não havia código escrito e nem sempre era por telefone, porque muita gente não tinha. A gente se encontrava e perguntava, ‘Aquele seu aluno…….?’ ”

Mas surge a 3ª banca examinadora e começa a venda de cordéis.

Vamos voltar as graduações, a ideia do cordel era boa, mas o material por si só era complicado.

Quem tinha “meia dúzia” de alunos trançava na boa, dava um trabalho danado.

A Senzala, grupo que sempre foi referência, explodia na época.

Um designer de calça criado pela Quitéria deixa o capoeira com um estilo mais “maneiro”, tendência da moda. Nasce o Capoeira Wear. O silk screem está bombando, surgem camisas e camisetas.

Os eventos passam a ser todos com camisas iguais (o cara não tinha aluno bom e os amigos alinhavam em nome da capoeira)

Aí em Niterói, ou na Trindade, não sei onde foi a conversa, Rogério Loureiro de Carneiro, O Mestre Moreno (não sei se já era mestre nesta época), 1º Mestre formado da Angonal, saca a onda de pintar nas cordas da senzala as cores do Cordel. A galera tinha muito aluno, haja saco para fazer cordel. Corda dá trabalho, mas cordel dá mais.

Concluindo


A partir dos anos 80 perdeu-se a ética, que existia sim, vi muito mestre se juntar e fechar academia de aluno incompetente. Mas, quando as federações deram papeis, era lei. Eu vi federação mandar fechar casa de Mestres competentes que não queriam entrar na palhaçada que reinava.

O fenômeno no início de 1980 expandiu. A capoeira passa de centenas para milhares.


Aí chega o século XXI


Google que pariu!!!!! O êxodo para o exterior. Grupos disputando quem tem mais bandeira de país na camisa. O tráfico de material de capoeira para fora do país, tanto que hoje em dia fica difícil trazer qualquer coisa.

Caras com meses assumindo grupos, capoeiristas que vêm, queimam o filme e vão embora. Estrangeiros montando grupos, apoiados pela lei do seu país, e que nem querem ver mestre brasileiro como referência.

A capoeira chega a mais de 150 países. De milhares viram milhões. Milhões de escritores, compositores, inventores, criadores e bilhões de copiadores da média. Mas, dentre milhões, existe quem resista e trabalhe sério. FELIZMENTE A MÉDIA ESTÁ USANDO O TERMO ANCESTRALIDADE.

Para fechar, normalmente quando se faz workshop, oficinas, vivência (convivência), separa-se os grupos em turma de: INICIANTES, INTERMEDIÁRIOS, AVANÇADOS E PROFISSIONAIS
Olha os quatro, criança, jovem, adulto e velho. "

E você, o que acha desse tema? Na próxima semana eu trago a opinião de outros mestres sobre a unificação das graduações. Não perca a gente de vista, siga o Blog Capoeira de Toda Maneira nas redes sociais.


Até lá!







segunda-feira, 21 de março de 2016

A palavra do Mestre - Capoeira é esporte? - Parte 4




Para finalizar a questão do reconhecimento da Capoeira como esporte, pelo Ministério dos Esportes, trago a opinião de mais 5 mestres: Mestre Gato, Mestre Linguiça, Mestre Flávio Saudade, Mestre Alexandre Batata e Mestre Meinha.
Se você perdeu as postagens anteriores, clique aqui, aqui e aqui para saber o que pensam os mestres Boneco, Caçapa,Thiara, Catitu, Franja, Namorado, Ron, Mara, Kaco, Barrão, Preguiça, Fumê, Toni Vargas, Adelmo e Bené.




Mestre Gato - Senzala

“Capoeira é arte popular, patrimônio imaterial cultural da humanidade, não é esporte. É uma manifestação de cultura popular, tem elementos de dança, arte marcial, música, teatro de rua, mas não pertence a um desses elementos apenas. São eles integrados que caracterizam, de forma única, a roda de capoeira e temos a obrigação de preservá-la. Ela se desenvolveu sem apoio oficial e está presente agora no mundo inteiro, atraindo interesses de pessoas que não têm nada a ver com seu contexto.”




Mestre Linguiça – Arte de Bamba

“Pra quem é capoeirista de fato, alma e de direito, Capoeira é muita coisa: cultura , luta, arte, dança, lazer, esporte, filosofia de vida e etc. Porém, para quem apenas quer usar a Capoeira, fragmentando fica mais fácil. Quem faz  no máximo 6 meses de aula na faculdade não adquire conhecimento suficiente para ensinar, mas estão ensinando.

Hoje um secretário de esportes pode captar recursos para fazer um campeonato e realizar o mesmo sem a necessidade de um mestre, contramestre ou professor de Capoeira.  pois é só comprar um CD, pegar as regras, que já estão escritas desde que foi regulamentada em 1973 pela Federação Brasileira de Pugilismo, e arrumar competidores para realização do evento. Ou seja , estão fazendo com a Capoeira o mesmo que fizeram com o carnaval. Nasceu como sendo do povo e para o povo, agora somente a elite tem participação efetiva. Assim está acontecendo com a Capoeira.”


Mestre Flávio Saudade - Coordenador do Projeto Gingando Pela Paz

"Após ser incluída no Código penal, em 1934 a Capoeira foi liberada e proclamada pelo então Presidente da República esporte nacional brasileiro. Porém, o que houve foi um golpe, uma verdadeira rasteira que limitou a Capoeira ao espaço fechado. Com isso, a sua identidade revolucionária e seu caráter institucional foram profundamente atingidos. E o que vemos hoje é mais uma tentativa de rasteira, talvez a maior delas, pois a formalização da Capoeira como esporte abriria espaço para a sua industrialização, o que atingiria diretamente a sua essência. Cresceriam as escolas formadoras de atletas, engordariam as federações e confederações, lucrariam os grandes investidores às custas da descaracterização da nossa cultura.

Porém, temos de ter consciência de que existem muitos grupos e mestres que defendem a Capoeira como esporte e desenvolvem suas atividades neste sentido. Estão errados? Creio que não. Como não estão errados aqueles que como eu defendem a Capoeira como manifestação cultural e instituição revolucionária.

Como disse Mestre Pastinha, a Capoeira é "tudo o que a boca come". Logo, cada um come o que quer. A Capoeira é plural e responde às necessidades de cada um, e certamente muitos não abrirão mão de vê-la a serviço do mercado. E acontecerá exatamente isso caso a Capoeira seja delimitada somente como esporte. E quem o faz, não o faz senão por interesses financeiros e comerciais, para este modelo capitalista que vemos hoje destruindo vulnerabilizando nações e sacrificando vidas.

Porém, precisamos, nós capoeiras, fazermos a nós mesmos uma pergunta: qual é a Capoeira que queremos? E o que desejo ser para a Capoeira? Particularmente, acredito que o papel da Capoeira e de nós capoeiras vai muito além do que defender a Capoeira, mas precisa sair em defesa de outras bandeiras, das bandeiras do povo, como o fim da violência contra a mulher, o combate à corrupção e outras tantas bandeiras sociais. Necessitamos retomar a essência da Capoeira enquanto instituição. Ontem estávamos fechados entre paredes, hoje estamos fechados neste navio que se chama internet. É preciso voltar às origens e mostrar o que realmente somos, uma grande instituição revolucionária. E isso deve partir do berço, do Brasil! Porém, para isso devemos antes deixar de ver nossas diferenças como algo que nos separa, devemos olhar para aquilo que nos une e nos torna irmãs e irmãos: a humanidade. E a nossa luta deve ser por esta mesma humanidade, que agoniza diante de uma política mundial que inverteu o sentido das coisas, criando um mundo onde reina a ganância e a sede pelo poder, nos afastou do que realmente somos e nos escravizou quando nos fez correr atrás do dinheiro a cada dia.

A Capoeira tem muito para nos ensinar pois ela é a própria humanidade em exercício. Portanto, ela vai muito além de uma prática esportiva, isso é fato indiscutível.  E é esta força que precisa ser demonstrada, não apenas contra esta medida arbitrária deste conselho, mas em todos os momentos em que a humanidade, a vida, esteja sob ameaça."





Mestre Alexandre Batata – Companhia de Capoeira Contemporânea

“Capoeira é tudo, mas nem tudo é capoeira se as intenções não forem fiéis aos atos.”






Mestre Meinha – Cruzeiro do Sul

“Em uma parte é bom para que tenhamos mais acesso a patrocínios e aprovações de editais. Em outra parte é ruim porque muitos professores de Educação Física poderão dar aulas sem experiência ou vivência no mundo da Capoeira, deixando muitos mestres com muita bagagem desempregados.

Só não concordo com este reconhecimento agora, porque já tem uma lei reconhecendo a Capoeira como desporto e patrimônio, então acho que isso é uma jogada política, sei lá, para roubarem o que é nosso e o poder, o sistema tomar conta da Capoeira. Não estou acompanhando muito esse assunto, porque acho uma desonra para quem luta sua vida toda por nossa arte e cultura e dar de mãos beijadas ao sistema”


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segunda-feira, 14 de março de 2016

A palavra do Mestre - Capoeira é esporte? - Parte 3


Vamos à terceira parte da série "A palavra do Mestre", que nessa primeira edição traz a opinião de mestres renomados sobre a decisão do Mistério dos Esportes em reconhecer a Capoeira como esporte. Se você não acompanhou as duas primeiras postagens, clique aqui e aqui para ficar por dentro.

Hoje temos as opiniões de Mestre Preguiça, Mestre Fumê, Mestre Toni Vargas, Mestre Adelmo e Mestre Bené.






Mestre Preguiça – Iê Capoeira


“A Capoeira é arte e cultura, nasceu em ânsia de liberdade, não pode ter dono, nem monopólio.  Isto que estão querendo fazer é mais uma covardia com a Capoeira.”









Mestre Fumê – Grupo Muzenza

“Eu acho que tudo que vem para somar é válido, tratar a capoeira como esporte nos dá mais suporte para colocar a capoeira nas olimpíadas.”




Mestre Toni Vargas – Centro Cultural Senzala

“Essa questão da Capoeira ser reconhecida como esporte é algo muito delicado. O problema pra mim é a capoeira ser só esporte, esse é o problema. 

Eu temo porque esse caminho de desespotivização da Capoeira é um caminho mais fácil e um caminho que favorece a muitas pessoas que não tem um conhecimento profundo de capoeira, não querem ter e estão se aproveitando e vão se aproveitar desse momento. 

São os caras que são donos de federações e que são politiqueiros, enfim, pessoas que não têm uma relação profunda com a Capoeira enquanto uma atividade múltipla, uma atividade holística e até nem compreendem a Capoeira nesse aspecto. 

É muito mais fácil para essas pessoas e pra muitas outras, infelizmente, ver a capoeira segmentada. Ver a Capoeira como esporte e só como esporte acaba sendo muito mais fácil, acaba sendo muito mais funcional pra pessoas que querem tirar da Capoeira alguma coisa, que querem ver isso acontecer de uma forma mais simples. Há uma verba, o esporte está sempre mais na moda e esquecem dos problemas que a gente teve bem recentes, não é nem num passado distante, num passado bem recente porque quem cuida da área do esporte é a educação física, mesmo que as pessoas digam “Não, não tem nada a ver, porque o CREF/CONFEF não vão se meter nisso” mas uma vez que ela for uma modalidade desportiva, for esporte, ela vai estar na área da Educação física e isso vai voltar, quer dizer,  é um retrocesso. Causará problemas a um enorme número de profissionais que não são formados em educação física e que são agentes culturais. São pessoas que se fizeram na capoeira, como a maioria dos mestres de renome e pessoas que realmente lutaram pela Capoeira. 

Eu não conheço  nenhuma instância em que uma federação tenha ajudado realmente a Capoeira. Eu nunca vi em 50 anos de capoeira. Quem levou a Capoeira para todos os países, para outros lugares, para as universidades não foi uma federação. 

Eu temo muito pela descaracterização da capoeira, principalmente, pela falta de visão dessas pessoas, que vão ceder ao que for mais simples e ao que der mais dinheiro. São pessoas, que na minha opinião, infelizmente, têm essa visão. Falam qualquer coisa, fazem qualquer coisa pra ganhar dinheiro com a Capoeira e eu temo muito por isso. 

O fato da Capoeira ser uma manifestação múltipla da nossa cultura não anula o fato dela ter também características desportivas. Todo esse tempo que ela não foi reconhecida, as pessoas faziam no Rio de Janeiro, em outros lugares e até em outros países, campeonatos e nunca ninguém foi lá acabar com o campeonato de ninguém. Nunca ninguém implicou que alguém estivesse fazendo um treinamento de capoeira. Eu mesmo sou uma pessoa que faço isso, sou superligado a questão cultural, mas também gosto do treinamento, dessa parte toda, agora, não tem problema nenhum ver a capoeira como cultura, ver a capoeira em toda a usa grandiosidade e poder ter também uma abordagem desportiva em algum momento, em algum momento. Isso é completamente diferente de considerar a Capoeira como esporte, rotular a Capoeira como esporte e querer qualificá-la só como esporte, abandonando as outras coisas. 

O medo que eu tenho é esse, acho que isso tudo é feito a revelia, sem ouvir os capoeirista, porque na verdade essas pessoas donas de federação, os cartolas, não são representantes legítimos da capoeira, não têm com eles a maioria. Infelizmente essas pessoas forçaram essa barra, são oportunistas, é um momento muito delicado. Mas vamos ver o que vem pela frente, eu acredito muito nos capoeiristas e na Capoeira, sempre ela consegue se transformar e se recriar. Já houve muitas tentativas de enquadrá-la, mas eu não acredito que isso vá acontecer nunca, essa é a minha posição.


Mestre Adelmo – Capoeira Origens do Brasil

“Eu não acredito que possamos pensar em capoeira sem pensar na historicidade que ela compõe e não podemos jamais, e seria insano, descartar, ou deixar, mesmo que temporariamente, de lado o seu maior contentor, o Mestre (ou seja la qual o título que o agente transmissor tenha, professor, contramestre, trenel).

Qual a função primordial do mestre? Cuidar, transmitir, disciplinar e mostrar o caminho.

O que a história da capoeira tem demonstrado em toda a sua história? O mestre cuida do aluno, o aluno se tornando discípulo e o discípulo se tornando mestre.
De onde vem a base de tanto conhecimento? Toda essa construção foi forjada através de lágrimas, suor e sangue por milhões de capoeiras do passado e capoeiristas do presente. Assim construiu-se um sistema cultural maior dos que qualquer manifestação em solo brasileiro.

O sistema deseducou e a nação brasileira como meros trabalhadores braçais, sem capacidade de produzir reflexões (não irei me aprofundar neste aspecto para não me prolongar muito) assim com toda uma estrutura organizada, com os fundamentos estabelecidos e enraizados na construção dos mestres griôs, transmissores do saber ancestral. Se juntarmos tudo isso temos o estabelecimento de um sistema cultural. Fundamentalmente a capoeira é tudo e é nada, é positiva e negativa, ela é esporte e transcende esta faceta, ela é luta e também transcende esta faceta. Não dá para olhar em uma única direção quando a capoeira nos abre mil possibilidades.”





Mestre Bené – Benguela

“Tudo que vier de bom e de produtivo em prol da capoeira, que seja bem-vindo. Só falta a comunidade capoeirística se unir mais, porque essa é a única luta genuinamente brasileira.”







Na próxima semana mais cinco mestres falam sobre o tema.  Nos acompanhe nas redes sociais e fique por dentro de tudo que rola no blog Capoeira de Toda Maneira.
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segunda-feira, 7 de março de 2016

A palavra do Mestre - Capoeira é esporte? - Parte 2


Na semana passada postei aqui a opinião de cinco mestres sobre o reconhecimento da Capoeira como esporte. Se você não viu, clique aqui. Hoje trago a opinião de mais cinco mestres: Mestre Namorado, Mestre Ron, Mestre Mara, Mestre Kaco e Mestre Barrão.





Mestre Namorado – Ibamolé Capoeira

“Meu medo é o que virá depois. Esportes têm regras bem definidas, para competições deveria existir graduação unificada (uma só), coisa que não vai acontecer. Esse passo de se tornar esporte 'oficialmente' deve gerar obrigações futuras!

Como ensinar esporte, prescrever treinamento esportivo para seres humanos sem que seus profissionais tenham conhecimento de fisiologia, anatomia, biomecânica e etc? Isso é um assunto delicado e polêmico. 

A Capoeira merece esse status, mas muitos capoeiristas, muitos mesmo, não estão minimamente preparados para representar essa Capoeira contemporânea. Antes era fácil, qualquer um ensinava o que tinha aprendido e pronto. Temos que acordar, as coisas mudaram e preciso ser crítico, ter olhar crítico mesmo, questionar, entender que as pessoas são diferentes.


Não há receita de bolo para ensinar, temos que respeitar a individualidade biológica das pessoas, obedecer progressões pedagógicas e etc.

Na área da saúde, tudo muda muito rápido. O que hoje é um super método legal, amanhã pode ser lesivo ou letal, para isso existem milhares de artigos científicos saindo toda hora. Esse assunto ainda tem que ser digerido e discutido. Em breve devem vir mais surpresas, como cursos obrigatórios para se ensina,fiscalização do CREF e etc.”




Mestre Ron – Raízes de Vila Nova 

“Eu sou contra porque só o título de esporte acaba deixando a capoeira, que é tão rica no seu universo, muito pobre. 

A capoeira tá longe de ser apenas esporte e como muitos outros mestres, vejo que perderemos muito nesse sentido. 

Vejo esse reconhecimento com uma forma de favorecimento a alguns órgãos, que tentam há muito tempo nos prender a um regime, que tiraria dos mais antigos o valor conquistado e daria a muita gente que pouco sabe de capoeira, a igualdade perante as pessoas que temos como autoridades maiores da capoeira, que são os mestres antigos, que construíram tudo isso.”







Mestre Mara – Herança Cultural

“Bom minha opinião em relação a isso é que nossa arte perde no que diz respeito a nossa cultura, pois sendo regida pelo esporte onde fica nossa ancestralidade? A oralidade de nossa arte se limitará, ficando somente performático, com regras que muitas vezes poderão ser de pessoas que nem fazem a Capoeira.

A capoeira é cultura, sempre lutamos pela sua liberdade, não pode se limitar apenas a algumas pessoas.” 




Mestre Kaco – Rede Anca

“ O que me preocupa é saber que os interesses não estão voltados para capoeira. Eles querem é tirar proveito de algo que está estabelecido. Neste caso sou contra.”









Mestre Barrão – Axé Capoeira


“Mesmo sabendo que capoeira é uma das maiores referências culturas Afro Brasileira, também acredito que ela se encaixa no contesto esportivo, só temos que ter o cuidado para que ela não seja manipulada pela as federações e nem pelo CONFEF /CREF, dando o direito aqueles que têm formação de educação física e deixando de lado os professores e mestres que dedicaram toda sua vida a capoeira. 

A capoeira não tem dono, ela pertence a todos aqueles que a representa com seriedade."

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A palavra do Mestre - Capoeira é esporte? - Parte 1




A discussão é longa e de simples não tem nada. As opiniões estão divididas e a única certeza é o futuro incerto da Capoeira como esporte. Não sabemos o que de fato vai acontecer, mas é necessário estar atento aos prós e contras gerados por esse reconhecimento. Para ajudar você a chegar a uma conclusão sobre o tema, conversamos com alguns dos mais renomados mestres da nossa arte e perguntamos:

Qual o seu posicionamento sobre o recente reconhecimento da Capoeira como esporte pelo Ministério dos Esportes?

A cada semana você acompanha a opinião de cinco mestres. Hoje: Mestre Boneco, Mestre Caçapa, Mestre Thiara, Mestre Catitu e Mestre Franja.





Mestre Boneco – Capoeira Brasil

“Acho que ela tem espaço para ser esporte também, só não podemos esquecer que, acima de tudo, é uma arte de transformação, ela é cultura de um povo, ela é musicalidade, é ritmo, é dança, é acrobacia, é folclore, arte marcial, tudo isso misturado em uma mesma "panela"!

Dias Gomes traduziu brilhantemente a capoeira em seu poema;
"A capoeira é luta de bailados, dança de gladiadores, duelo de camaradas. Na capoeira os contendores não são adversários, são camaradas, não lutam, fingem lutar, procuram dar genialmente a visão artística de um combate, acima do espírito de competição há um sentido de beleza, o capoeira é um artista, um atleta, um jogador e um poeta ...Há neles um sentido de beleza....”




Mestre Caçapa – Capoeira Terranossa

“A capoeira está sendo aprisionada, no meu ponto de vista. Nesse momento pode parecer bom, mas mais tarde vai mostrar para o que veio. 

A capoeira é arte, é cultura e muitos estão falando que o cara para dar aulas de capoeira vai ter que ser formado em educação física, não sei se e verdade. Aí eu te pergunto, aonde está a liberdade nisso? Hoje o cara é aluno e já monta grupo, imagine esse cara formado em educação física sendo amparado pela lei. No mínimo o cara para ser formado professor é de 10 anos, para ser formado em educação física são 4 anos, tu acha que esse cara vai esperar? Mas isso e só um pouquinho do que pode acontecer. Eu sou contra. 

Outra coisa, quem deu esse poder a eles para reconhecer a capoeira como esporte? ”



Mestre Thiara – Associação Iê Capoeira


“Existem aspectos positivos e negativos. Os positivos são vários como uma maior valorização da capoeira, captação de recursos, exigência de um nível superior para os futuros profissionais da capoeira entre outros, mas a preocupação é com o aspecto cultural da capoeira, os velhos mestres. 

Como ficaria a nossa capoeira nas mãos do Confef? A capoeira é mais que um esporte, qual seria o critério deste órgão para agregar recursos? 

Embora seja formada em Educação Física, não sei se seria bom estes recursos estarem sob a direção deste órgão. Pagamos uma anuidade alta para pouco respaldo, como seria com os capoeiristas?”  






Mestre Catitu – Herança Cultural

“A capoeira é esporte sim, mais também é cultura, é arte, música, é filosofia de vida!

Ela tem que ser reconhecida com tudo isso e ter recursos em todos os âmbitos por ser um patrimônio nosso. Com isso virão os órgãos controladores. Sou contra ela ser regida e fiscalizada por esses conselhos que nada sabem dela. Os saberes da capoeira vão muito além de um diploma.

Eu sou formado em Educação Física e sou contra a capoeira ser controlada por qualquer instituição que não haja algum vínculo com nossa ancestralidade e cultura.

Viva a nossa Capoeira!”






Mestre Franja – Rede Anca

“Eu acho que a Capoeira deveria ser reconhecida como esporte, mas o pessoal que está organizando esse movimento é o pessoal da Confederação Brasileira de Desportos e eles querem pegar o monopólio da Capoeira e isso não é bacana. 

Querem controlar a Capoeira com a ajuda do CREF/CONFEF e a Capoeira é livre, não seria bacana ela ser aprisionada. A Capoeira é um símbolo de libertação. Esse movimento não é um movimento legítimo, pra nós não vai ter vantagem nenhuma. 

Querem levar a Capoeira para as olimpíadas e pra ser um esporte olímpico tem que ter um padrão e a Capoeira não tem isso. Como é que você vai padronizar uma expressão corporal? 

Ela como um esporte entraria numa pasta que tem uma grana, isso pra gente é muito importante, porque é muito difícil conseguir uma grana do governo pra ajudar você a fazer alguma coisa. Se não tivesse esse movimento que quer pegar o monopólio da Capoeira, seria bacana. Cada mestre poderia fazer o seu campeonato, com suas próprias regras e receber um dinheiro do governo. 

Esse movimento desvaloriza o conhecimento dos mestres antigos. Eu sou contra esse movimento e não contra a Capoeira ser reconhecida como esporte, mas um esporte livre! É uma politicagem, eles querem cuidar da Capoeira como se fosse deles e a Capoeira não é de ninguém. Nós Capoeiristas somos da Capoeira. A capoeira é de todo mundo, ela é livre. Ela é até de quem não pratica capoeira, mas gosta, pesquisa, estuda,  fala sobre ela.”

Na próxima semana mais cinco mestres falam sobre o tema.  Nos acompanhe nas redes sociais e fique por dentro de tudo que rola no blog Capoeira de Toda Maneira.

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