segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Entrevista


 Mestre Boneco

 Grupo Capoeira Brasil


Em 21 de Julho de 1962 nascia em São Paulo, Luiz Alberto N. Simas. Mais conhecido como Mestre Boneco, ou simplesmente Beto Simas, nome artístico do presidente do Grupo Capoeira Brasil. 
Devido ao tempo escasso do Mestre, essa entrevista foi feita por e-mail, porque apesar de ter estado no Brasil recentemente, são tantos os compromissos, que quando me dei conta o Mestre já estava em Los Angeles, local onde mora hoje, embarcando para a Austrália. 
Criador de um grupo de dubles especializados que atuam em todo tipo de produção artística, ator, modelo e evidentemente um grande divulgador da nossa arte pelo mundo, já tendo viajado para mais de 15 países e inúmeros estados do Brasil levando a capoeira. Recentemente terminou de gravar seu programa "Capoeira pelo mundo" que irá ao ar pela TV Brasil .
É o idealizador do I Fórum Mundial de Capoeira que será realizado em Julho no Rio de Janeiro. Eu só queria saber que horas ele faz tudo isso. Enfim pessoal, espero que gostem, pois o Mestre Boneco, eu já sei que gostou...rs
*A entrevista a seguir foi realizada em Abril de 2011 e é inédita e exclusiva do Blog Capoeira de Toda Maneira.

(Maíra Gomes) - Como foi o seu primeiro contato com a capoeira?


(Mestre Boneco)  - Meu primeiro contato com a Capoeira foi quando eu tinha por volta de 11 anos, estava observando uma rapaziada gesticular e falar alto e aquilo me chamou a atenção e quando o grupo dispersou fui ate o encontro de um dos rapazes, que eu conhecia da rua e perguntei do que e que eles estavam falando com tanta empolgação. Ele me disse que era capoeira, então me explicou, pois eu não tinha ideia do que se tratava e me convidou a assistir um Batizado de capoeira, fui, e foi amor à primeira vista, fiquei apaixonado pela capoeira. Comecei a treinar e nunca mais parei.
 


(Maíra Gomes) - Em 1989 o senhor ajudou a fundar o Grupo Capoeira Brasil. Como aconteceu e porque sair do Grupo Cultural Senzala para fundar um grupo novo?

(Mestre Boneco)  - O Grupo Capoeira Brasil foi fundado em 14 de Janeiro de 1989, Paulão do Ceará, Paulinho Sabiá e eu que fundamos o Grupo. O Grupo surgiu de uma necessidade nossa de darmos continuidade a um projeto que já havíamos começado. Estudei sob o Grupo Senzala durante muitos anos, mais ou menos 18 anos. Achamos de comum acordo, que era hora de constituirmos um novo Grupo que atendesse os nossos anseios e as nossas necessidades.

(Maíra Gomes) - O que aconteceu primeiro, a vida artística ou a capoeira?

(Mestre Boneco) - Antes de tudo sou Capoeirista, comecei a capoeira muito, mas muito antes de atuar. Comecei na década de 70 com a capoeira e só na década de 90 e que comecei a atuar.

(Maíra Gomes) - Ser ator foi por acaso ou o senhor buscou por isso?

(Mestre Boneco)  - Começou meio que por acaso, pois fiz alguns trabalhos que me levaram a estudar e também a amar e respeitar o mundo da dramaturgia.

(Maíra Gomes) – Além de trabalhos na TV, o senhor atuou no filme Hans Staden em 1999, Novela Novela em 2001 como foi?

(Mestre Boneco) - Fiz varias participações em novelas, casos especiais como você decide, em alguns filmes e tive uma experiência única no teatro quando fui chamado para fazer uma peça de Shakespeare, "Péricles", no teatro João Caetano, experiência inesquecível.
Hans Staden também foi uma experiência única, muito bom! A capoeira e a arte tem muito em comum.

(Maíra Gomes) - O senhor tem dois filhos atores e um jogador de futebol. Eles também praticam capoeira? E sua esposa?

(Mestre Boneco) - Todos os três jogam bem capoeira, apesar de não estarem treinando. Minha mulher nunca fez uma aula, mas com certeza sabe muito!!!! Ahahah!!!!

(Maíra Gomes) - Mestre queria que o senhor falasse um pouco da sua ONG “Benção Brasil”. Sobre a criação dela, e como ela vem atuando na recuperação de jovens do Brasil e do exterior.

(Mestre Boneco) - Na verdade a Benção Brasil eu criei em 2003 em Los Angeles para atender um publico de crianças e adolescentes em escolas publicam. Para dar a oportunidade dessas crianças de terem uma atividade que, realmente, pudesse tira-los da ociosidade, para que não desviassem sua trajetória. E ate hoje trabalhamos nesta direção.

(Maíra Gomes) - Pesquisando pra fazer essa entrevista li que o senhor e sua esposa tiveram que ralar muito nos EUA, até ter a estabilidade que tem hoje. O senhor já alcançou todas as metas que levou dentro da sua mala quando saiu do Brasil?

(Mestre Boneco) - Ainda não, estou longe do que pretendo. Ainda continuo trabalhando duro para poder realizar todos os meus projetos e sonhos, é verdade já tive algumas conquistas, mais o ser humano esta sempre querendo algo mais... Acho que temos que sonhar sempre e agir para poder realizá-los.

(Maíra Gomes) - Mestre o senhor é um dos maiores divulgadores da capoeira pelo mundo. O fato de estar na mídia facilita esse processo ou não tem relação com o seu trabalho fora do Brasil?

(Mestre Boneco) - Eu acho que o fato de estar na mídia e fruto de muito trabalho, por isso, com certeza você acaba conseguindo alcançar o seu objetivo! Mas a mídia e uma consequência do seu trabalho!

 (Maíra Gomes) - Em Julho o senhor estará promovendo o 1º Fórum Internacional de capoeira. Como surgiu a ideia? Qual a expectativa para o evento?

(Mestre Boneco) - A ideia surgiu a partir de um momento que , eu acho , estamos vivendo no mundo e na capoeira. E hora de conseguirmos unir todos em prol de um bem comum e a capoeira e uma ferramenta imprescindível para essa transformação do ser humano. E hora de usarmos a forca da capoeira como ferramenta para uma melhor qualidade de vida do ser humano. Mas para isso temos que preparar as lideranças!

(Maíra Gomes) - Em sua opinião a capoeira deveria ter um sistema único de graduações?


(Mestre Boneco) - Acho esse assunto muito importante e quero conseguir abordar no Fórum. Acho sim, muito importante que todos os grupo venham um dia a ter uma única graduação. Só que e um trabalho muito delicado, pois todos nos teríamos que ceder de uma forma ou de outra!

(Maíra Gomes) - Queria pedir pro senhor falar um pouco sobre o Documentário que fez para a TV BRASIL “Capoeira pelo mundo”, que estreia no próximo dia 9 de maio.

(Mestre Boneco) - Esse é um projeto que eu tinha há quase dez anos e finalmente no ano passado conseguimos colocar em pratica. Na verdade e um programa que nos produzimos e eu apresentei levando o publico a ter uma noção da capoeira jogada pelo mundo, lógico que não deu para mostrarmos tudo, mas vocês terão a oportunidade de viajar pelo Rio, Salvador, Los Angeles, Nova York, Montreal e Israel. Foi feito com muito amor e acho que vocês vão gostar! Espero!!!!

(Maíra Gomes) - O senhor visitou Nova York, Montreal, Tel Aviv, Rio de Janeiro e Salvador, haverá uma nova temporada, com visita a outros lugares do mundo?

  (Mestre Boneco)  - Já estou com outro projeto, se Deus quiser em breve teremos nova temporada!!!!

(Maíra Gomes) - Quem são seus maiores ídolos na capoeira?

(Mestre Boneco) - Quando comecei sem dúvida foi, na época meu antigo Mestre, Camisa.
Agora, acho existem inúmeros grandes nomes, principalmente do passado. Perece clichê, mas os Nomes de Mestre Pastinha e Mestre Bimba sempre aparecerão quando se pergunta sobre grandes nomes na capoeira, mas muitos capoeiristas também foram famosos, apenas talvez não conseguiram a "mídia" para poderem se destacar mais...

(Maíra Gomes)  - Como o senhor espera que a capoeira evolua daqui pra frente na questão do reconhecimento dela como Patrimônio Cultural brasileiro?

(Mestre Boneco) - O mais importante, eu acho, é que tenhamos educação e respeito para com a nossa arte, pois sem isso fica muito difícil avançarmos para um outro patamar!!!
Claro que temos também que trabalhar serio e duro, mas sem egos e com muita consciência e união. Já avançamos bastante, mas há muito mais que se fazer!!!!

(Maíra Gomes) - Pra terminar Mestre, agradeço muito a sua gentileza em dedicar um pouco do seu tempo em responder a essas perguntas.

(Mestre Boneco) - Eu é quem agradeço pela oportunidade!!!

Contatos:
Mestre Boneco
Facebook: Mestre Boneco

Twitter: MestreBoneco / CapoeiraLA / ALMAvidaorg

Informações sobre o I Fórum Internacional de Capoeira
www.riocapoeira2011.com.br

E também aqui no blog em matéria sobre o evento 

Entrevista


  Mestre Cid

         Capoeira Terranossa

Nascido em 28 de Março de 1957, no Rio de Janeiro, Milciades Ferreira da Costa Dourado, hoje conhecido por toda a comunidade capoerística como Mestre Cid, diz que o reconhecimento dos alunos é muito gratificante pra ele, "Os alunos são tudo na minha vida!", afirmou em um bate-papo descontraído. O mestre que hoje dá aulas todos os dias da semana, em vários horários diferentes, foi seguido um dia inteirinho, porque essa era única maneira de conseguir uma entrevista, já que nos fins de semana, seu tempo é dividido entre eventos de capoeira e a família. O pouco tempo que tem para descansar é dedicado à esposa e a seus dois filhos, Raphael e Amanda. 
Família, profissão e reconhecimento  foram os temas da nossa entrevista, que está imperdível e emocionante.

*A entrevista a seguir é uma compilação de duas entrevistas feitas anteriormente (2006 e 2008) e publicadas no Blog Nyx e no site da Associação de Capoeira Terranossa. 

(Maíra Gomes) - Como e quando o senhor começou a treinar capoeira? Em que grupo e com que mestre?

(Mestre Cid) – Eu comecei a treinar capoeira com 15 para 16 anos em Laranjeiras, após uma apresentação de um grupo de capoeira "Furacões da Bahia" numa churrascaria na Rua das Laranjeiras, que meu pai levou as crianças, né?! Aí nós ficamos impressionados com aquela apresentação. Meu pai tinha uma condição boa na época, uma casa muito grande, contratou o grupo pra fazer a apresentação dentro da minha casa. O interesse foi grande, o Cebolinha (hoje mestre na Bahia) ficou morando na minha casa e ficou dando aula pra gente lá nos fundos, comecei a treinar capoeira nessa época. Mas depois no Grupo Senzala, eu treinei com Mestre Camisa (hoje mestre do grupo Abadá), Mestre Peixinho, Mestre Cláudio Moreno, Mestre Gato, Mestre Sorriso, Mestre Garrincha. Eu era muito fominha, treinava de manhã, de tarde e de noite.

(Maíra Gomes) - O senhor sofreu um acidente de moto em 1977, aos 20 anos. Esse acidente lhe fez perder a visão da vista esquerda. Como o senhor encarou o problema? Isso atrapalhou a sua permanência na capoeira?

(Mestre Cid) – Totalmente. Atrapalhou muito, porque você tem que reaprender a viver, você perde a noção de profundidade, você perde tudo. Fora o psicológico né?! Você fica abalado. De uma hora pra outra, você saber que vai ficar limitado por causa de uma visão. Mas como eu sempre fui muito radical em certas coisas, eu botei na minha cabeça que eu ia superar, que eu não ia para o lado errado.Treinei mais, voltei a fazer tudo, jogar bola, que eu jogava, treinar capoeira e cada vez treinar mais, para tentar superar isso aí e provar para todo mundo que eu era capaz. Da minha geração o único que se formou fui eu.

(Maíra Gomes) - Antes de ministrar aulas de capoeira o senhor chegou a trabalhar em outras atividades?

(Mestre Cid) – Várias atividades. Mecânico de refrigeração, eu tive bar, tive lanternagem e pintura também. Várias atividades e cursei faculdade de direito até o quarto período.

(Maíra Gomes) - Quando o senhor descobriu que queria dar aulas de capoeira?

(Mestre Cid)– Eu ajudava nas aulas. Eu só ajudava, mas não tinha o meu trabalho. Aí aqui treinando junto com o Mestre Batata, ele começou a passar a responsabilidade para mim, de horário, de chegar, de ter que ficar dando aula e isso me fez ter muita vontade de ter essa responsabilidade. E me fez muito bem também, porque eu sempre fui uma pessoa muito tímida, isso tava mexendo comigo, tava me ajudando bastante a desenvolver esse lado de deixar de ser tímido.

(Maíra Gomes) - Que outra profissão o senhor teria tido senão tivesse ingressado na capoeira?

(Mestre Cid)– Eu tentei a faculdade de direito, mas descobri que não era a minha praia, tava só gastando dinheiro, que eu trabalhava para poder pagar a faculdade e não ia ser isso. A profissão que eu tenho é técnico em contabilidade e técnico de refrigeração, que essa profissão eu exercia muito bem, mas chegou a "encher o saco".

(Maíra Gomes) - O senhor tem um trabalho muito forte em Icaraí, principalmente com crianças. Trabalho esse que vem sendo desenvolvido há 30 anos. Além das aulas infantis nas academias, o senhor também dá aulas em escolas como "Cirandinha", "Marly Cury", Mv1 dentre outros. Colégios que atendem uma classe privilegiada de Niterói. É mais difícil atender esse público? O senhor tem autonomia na sua metodologia de ensino ou há alguma interferência da escola?

(Mestre Cid) – Não é mais difícil. É gratificante porque o salário é bom, a gente ganha muito bem. Hoje o professor de capoeira dando aula em escolas particulares, se brincar, ganha mais que um médico, que deveria ser melhor remunerado. Mas um professor de capoeira, hoje ganha muito bem. É muito gratificante para quem gosta de criança, para quem gosta de trabalhar com criança. Não vejo nenhuma dificuldade em trabalhar com criança. Em relação à interferência da escola, de maneira nenhuma, porque a partir do momento que você desenvolve um bom trabalho ninguém vai opinar, mas se o trabalho não tivesse sido bem desenvolvido haveria interferência da escola. Até hoje, nunca houve interferência não. Tem planejamento de aulas, eu tenho uma equipe boa de professores, a gente está sempre tentando melhorar.

(Maíra Gomes) - Esse trabalho com crianças, devido à classe social que ele atinge, é mais difícil de ser feito?

(Mestre Cid) – Com certeza. É muito mais difícil e requer muito mais atenção do que você dar aula numa comunidade. A aula numa comunidade, o aluno ta ali porque quer mesmo, quer fazer, não é modismo. Uma certa parte na rede particular é um pouco de modismo. Através da mídia, a capoeira ta na mídia, aí os pais colocam os filhos, mas a partir do momento que eles tem o contato com a capoeira, gostam. Mas tem que ter todo aquele cuidado, não pode ter um machucado, não pode cair, não pode nada. Tem que ter todo um cuidado maior. Em relação às comunidades já não. Já ta no sangue.

(Maíra Gomes) - O senhor foi homenageado no ano de 2004 com uma menção honrosa na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Como foi receber essa homenagem?

(Mestre Cid) – Foi muito legal. Fiquei muito feliz. Foi uma coisa assim que eu não esperava que fosse tão legal. Achei muito legal mesmo, mas ficaria muito mais feliz se fosse Niterói que é minha cidade.

(Maíra Gomes) - Há um tempo atrás houve uma tentativa de regularizar a capoeira, fazendo com que os profissionais de capoeira fizessem cursos, para ter seu número do CREF/CONFEF (Conselho Regional de Educação Física/ Confederação de Educação Física) e assim terem uma espécie de licença para dar aula. Essa intervenção do conselho para o senhor é benéfica? Na sua opinião essa regulamentação é necessária? Como está essa situação atualmente?

(Mestre Cid) – Muito benéfica. Vai credenciar melhor o profissional. E não parou não. O CREF ta em cima. Porque aí você vê, para você dar aula numa escola boa hoje tem que ter referência, se você não tem o CREF de cara você não vai. Montou uma academia nova, você quer dar aula lá, chega um garoto pra dar aula à primeira coisa que eles vão fazer é pedir CREF. Isso é muito legal. Agora em relação aos mestres antigos, é um direito adquirido, não tem como a lei ser retroativa. Mas isso aí daqui pra frente vai obrigar o profissional de capoeira a se interessar, a estudar. E eu fiz dois anos de CREF.

(Maíra Gomes) - O senhor sempre esteve muito envolvido com trabalhos sociais, campanhas, dando aulas para pessoas menos favorecidas, ajudando da maneira que pode os menos privilegiados. Qual a importância da capoeira pra esses jovens e crianças e como pretende continuar esse trabalho social?

(Mestre Cid)– A importância é toda. Para criança ocupar o tempo, não ficar à toa, não ficar pensando em besteira. Ta aprendendo uma defesa, é uma luta, é um esporte e é uma profissão. É uma profissão que hoje você vê muita gente vivendo de capoeira aí. Quem vive só de capoeira, como é o meu caso, vive bem. Agora quem não acredita na capoeira, trabalha um pouquinho na capoeira, trabalha um pouquinho ali, não acredita, eu acho que nunca vai crescer na capoeira, mas é uma profissão hoje. Tem vários exemplos dentro do grupo, gente que não tinha perspectiva nenhuma de vida, hoje ta bem de vida.

(Maíra Gomes) – E como esse trabalho continua sendo desenvolvido hoje?

(Mestre Cid) – É difícil, ta muito difícil. Porque ano eleitoral, ano que tem eleição, fica mais fácil, tem um apoio, coisa e tal, vem uns projetinhos. Depois que são eleitos eles somem. Mas agora a gente ta com uma meta, para um novo espaço para o pessoal carente, nas comunidades. To tentando desenvolver isso aí.

(Maíra Gomes) - Como em todos os esportes, há uma rivalidade entre alunos de alguns grupos. Como o senhor vê essa rivalidade? Ela vem só dos alunos, ou alguns mestres apoiam esse tipo de rixa?

(Mestre Cid) – A capoeira para quem não sabe, funciona igual futebol. Flamengo, Vasco, Fluminense, a rivalidade é natural. Por um lado é até benéfica, porque as pessoas vão desenvolvendo mais naquela competitividade e vão melhorando. Geralmente é a cabeça dos alunos, "ah meu mestre é melhor do que o seu!", para um mestre isso é muito difícil, se é um mestre de capoeira mesmo, não vai ter essa besteira não. Agora se é um cara que dá aula de capoeira e tem outra profissão e o cara não vive de capoeira mesmo, aí tem cabeça pequena ainda.

(Maíra Gomes) - A influência da mídia é algo muito forte na vida dos brasileiros, talvez no mundo todo seja assim. O senhor sente nas academias em que dá aula, como a mídia influência à entrada de novos alunos na capoeira?

(Mestre Cid)– Com certeza, se não fosse a mídia à gente tava estagnado. A mídia é tudo, a capoeira chegou aonde chegou através da mídia e dos bons profissionais.

(Maíra Gomes) - O reconhecimento que mais emociona é o dos alunos ou da comunidade capoeirística?

(Mestre Cid) – Dos alunos sem dúvidas. A comunidade capoerística rola uma rivalidade ainda, tem sempre um querendo puxar o tapete do outro. Os alunos são tudo na minha vida.

(Maíra Gomes) - Mestre Pastinha dizia que o capoeirista não podia viver de capoeira. Apesar de todas a s dificuldades muitas pessoas tiveram uma chance na vida, se tornando profissionais de capoeira. Como o senhor vê essa questão contraditória?

(Mestre Cid) – Mestre Pastinha falava que não podia viver de capoeira porque na época a capoeira era marginalizada, hoje em dia a capoeira é uma profissão. Hoje é reconhecido o Mestre de capoeira. Quem vive de capoeira como eu falei anteriormente, vive bem hoje, acreditando na capoeira vive bem, é só trabalhar. Você quer viver de capoeira, dá aula o dia inteiro. Você não vai querer viver de capoeira dando uma aula por dia e vai querer ganhar bem?! Se você der aula o dia inteiro, acreditar na capoeira, a capoeira vai te dar um retorno.

(Maíra Gomes) - Ser Mestre é muita responsabilidades e é também o sonho de muitos capoeiristas. O senhor sabia desde o início que seguiria na capoeira até chegar a mestre? Era um sonho? O que mudou na sua cabeça quando o senhor foi graduado Mestre?

(Mestre Cid) – Ser mestre não é ser graduado, é uma conseqüência do tempo. Quando eu peguei minha corda de mestre em 1995, a corda não dizia nada que eu era mestre, só o tempo ia dizer, o trabalho, o reconhecimento dos alunos, da sociedade, desenvolver um trabalho. Porque não adianta você pegar uma corda de mestre hoje e amanhã você parar, você vai ser mestre de quem? Mestre de você mesmo? Eu sempre quis ser professor, ser mestre seria a conseqüência, o professor pra mim era dar aulas, ter o contato, botar pra fora a timidez, falar em público, realizar eventos, dor de estômago por ta nervoso no evento, hoje em dia já não acontece mais, graças a deus.

(Maíra Gomes) - Dentro das suas turmas de alunos nós podemos ver várias classes sociais. A capoeira é acima de tudo uma arte com valores de igualdade, liberdade, fraternidade, respeito, conceitos esses muito fortes, que estão embutidos na própria filosofia da capoeira. O senhor já presenciou alguma forma de preconceito entre os seus alunos?

(Mestre Cid) – Dentro dos meus treinos, entre os meus alunos, o preconceito que eu sempre observei, mas tento corrigir é em nível de talento, por ser melhor, não por racismo. Pelo contrário "Ah o outro é melhor", "Tem mais atenção", é mais um ciúme. Eu sempre costumo conversar com os alunos a respeito disso "Quando você entrou na capoeira, se você não tivesse uma atenção, você não estaria hoje na capoeira".Porque da minha turma eu era o que tinha menos jeito e mesmo assim to até hoje.

(Maíra Gomes) - Como é a responsabilidade de ser presidente de um grupo?

(Mestre Cid) – Muito grande, uma ocupação total. Tem que se dedicar 24 horas por
dia à capoeira, senão não dá não. É muita responsabilidade, mas sempre fui muito
responsável e determinado, desde criança, graças a meus pais.

(Maíra Gomes) – E muda a maneira de pensar depois que se torna presidente de um grupo, por causa da parte burocrática que começa a aparecer mais?

(Mestre Cid) – É muito diferente, né? Tem que ser mais flexível, ouvir todo mundo. Tem sempre que fazer reuniões do grupo, porque é cobrança o tempo todo. Isso se quiser
crescer, né?!

(Maíra Gomes) - Hoje o grupo está sediado em Niterói, mas foi fundado na áfrica do sul, como o senhor vê esse intercâmbio entre nações?

(Mestre Cid) – Fantástico né? Capoeira e áfrica, tudo a ver. Deus sempre foi muito bom pra mim.

(Maíra Gomes) – Porque foi ao contrário, geralmente os grupos nascem no Brasil e ganham o mundo e dessa vez não, o senhor vê alguma diferença?

(Mestre Cid) – Não porque o Amilcar (Instrutor Descobridor), ele já tinha treinado comigo aqui no Brasil. Depois ele passou mais um tempo com os alunos dele aqui e treinou comigo novamente. Depois nessa viagem a África do Sul surgiu essa idéia de presidir o grupo. Mestre Mintirinha me disse “Levanta a cabeça e vai em frente, poucos já estiveram na
África”, e eu agradeço a ele pelo apoio.

(Maíra Gomes) - Em relação à técnica, como está a capoeira na África do sul?

(Mestre Cid) – Muito legal, até porque já existia esse intercâmbio, de treinar aqui, então a gente fala a mesma língua. A capoeira ta atualizada. Eu tenho ido, tenho ensinado e tenho aprendido muito também.

(Maíra Gomes) – Mestre, vou terminar muito obrigada pela oportunidade.

(Mestre Cid) – Valeu!

Contatos:
Mestre Cid:
Email: mestrecid@ig.com.br
Telefone: ( 21) 92175976


Entrevista


 Mestre Alexandre Batata
  Companhia de Capoeira Contemporânea


Nascido no Rio de janeiro em 12 de Abril de 1961, Mestre Batata faz questão de dizer:Polêmica podia ser seu sobrenome, já que o Mestre Batata não tem papas na língua e responde no ato a qualquer pergunta. Dono de uma energia sem igual, o nosso entrevistado deste mês, agita qualquer roda com seu canto e seu berimbau. Ele acaba de escrever um livro que está em fase de finalização e nos conta em detalhes sua história na capoeira, esporte que ele abraçou há 33 anos.
“-Sou Aluno do eterno e poderoso Mestre Luís Américo da Silva, Mestre Mintirinha.”
A entrevista foi feita numa quinta-feira, dia 11 de Dezembro de 2008, em Niterói, após um treino que o próprio Mestre Batata puxou no La Salle. Clima mais do que descontraído, a entrevista foi feita na mesa de um bar, para poder acomodar a platéia que teve o prazer de assistir em primeira mão a entrevista.
Não da pra perder, essa que promete ser a entrevista mais ardida e completa das que já tivemos no Blog. Além de estar recheada de conhecimento.

*A entrevista a seguir foi realizada em Dezembro de 2008 e foi publicada originalmente no site da Associação de Capoeira Terranossa.
                                                                                    
(Maíra Gomes) - Como o senhor começou na capoeira?

 (M. Batata) – Bem, eu comecei na capoeira de uma forma muito estranha. Eu morava em Copacabana e no Colégio Cícero Pena eu vi uma apresentação do grupo Senzala e gostei muito da capoeira. Depois eu tava no meu apartamento conversando com uma garotada lá, e um cara me disse “Capoeira? Eu faço capoeira.” e me deu uma benção nos peitos e me colou na parede. Aí eu fiquei com aquilo na cabeça. Aí eu tava no Grajaú, na casa do meu primo Max e ele começou a brincar e tal, dá pulo para um lado, pulo para o outro e eu comecei a brincar com ele, achei aquilo legal e ele falou assim “Poxa eu vejo a capoeira aqui na academia do Mestre Mendonça no Grajaú”. E eu resolvi entrar na capoeira. Mas só um ano mais tarde é que o meu amigo o Ângelo, falou assim “Eu sou aluno do Mestre Mintirinha, que dá aulas na ABB, vou te levar pra conhecer o meu mestre.” Conheci o Mestre Mintirinha e foi paixão pela primeira vista, pela capoeira, desde o dia primeiro de Abril de 1975 que eu faço capoeira sem parar.

(Maíra Gomes) - Como foi a caminhada até os dias de hoje na Companhia de capoeira Contemporânea?

(M. Batata) – Eu comecei na ABB, com Mestre Mintirinha, num grupo chamado Capoarte de Obaluaê. Minha família mudou pra Niterói e eu não quis vir. Morei seis meses com um tio para não abandonar a capoeira. Mestre Mintirinha parou de dar aula na ABB em 1977 e foi trabalhar com as crianças da Funabem eu vim a Niterói e não via capoeira. Aí vi num panfleto na rua de musculação, quando eu cheguei na academia de musculação eu vi um cara enorme fazendo musculação e ele virou pra mim e disse “Você não devia fazer musculação não, porque você é atarracadinho. Se você fizer musculação você vai ficar uma batatinha, você devia fazer capoeira”, aí eu falei “Pô eu adoro capoeira, sou aluno do Mestre Mintirinha, quero fazer capoeira” e ele respondeu “Eu sou Mestre Alcion e dou aula na Associação de capoeira Barravento”. Então Mestre Alcion me trouxe pra Barravento, onde eu treinei onze anos. Eu consegui aqui em Niterói fazer com que a capoeira fizesse um “boom” brutal. Quando eu treinava na Barravento o Mestre Bogado tinha arrebentado o joelho, o Mestre Alcion tava parado, treinava só eu e um mestre, que eu treinei muito com ele, esse cara também foi meu mestre de capoeira, José Torres Galindo, o Mestre Mudinho. Mestre Mudinho era muito técnico e eu também treinei muito tempo sozinho. Tanto que em 1978 a Barravento foi disputar um torneio na academia do Mestre Travassos e eu fui sozinho disputar as categorias leve, médio e pesado, capoeira figth e fiquei em terceiro lugar nas três categorias. Fiquei na final, tava com a luta ganha, jogando com um grande capoeirista, o Dário. Tropecei na perna dele, caí e quebrei o cotovelo.
Depois por questões que não vale a pena falar, uma coisa é o seguinte, quando você gosta de alguém fale sempre, quando você não gosta de alguém, fale o mínimo necessário. Eu trabalhei muito pela Barravento e chegou uma altura que eu achei que o meu espaço estava sendo desrespeitado de alguma forma. E quando alguém começa a invadir o meu espaço eu simplesmente faço assim: Fica que eu vou! Sai da Barravento, fiz o Raízes d´África que explodiu, foi brutal, aí um bando de adolescentes, alunos meus resolveu tentar seguir seus próprios caminhos, o Fumê, o Sabonete e o Cícero, resolveram criar um grupo, que era o Aruanda. E os únicos que ficaram comigo foram o Cid e o Kryptonita. Quando o Raízes d´África se dividiu com o Aruanda eu nunca deixei de ser amigo dos meninos do Aruanda, ia a todas as rodas deles, íamos a todas as festas, fazíamos tudo juntos, eles quiseram criar o trabalho deles e a maior prisão é a liberdade, então você deixa o cara voar, de repente ele vai parar assim “Nós não demos valor ao que o mestre estava nos dando e agora a gente vai tirar de onde?”
Eu tinha ficado seis anos sem falar com o Mestre Burguês, por causa de brigas dele com o Mestre Bogado. E o Mestre Mintirinha estava voltando a dar aula, então eu resolvi me juntar ao nome forte da Muzenza.
Anos depois algumas coisas começaram a me incomodar. Tinha uma pessoa que sabia que eu ia sair da Muzenza, que era o mestre Cid, ninguém mais sabia, ele era meu amigo, super confidente e eu falava que já não tava aguentando mais. Num certo dia no batizado do Mestre Fume, eu falei “Pessoal to indo embora e não quero ninguém comigo, porque vocês fizeram um trabalho, o trabalho ta muito legal, toquem o trabalho” o único que veio comigo foi o Kryptonita, porque não tinha como. Criei a companhia de capoeira contemporânea, e é uma frase que o próprio Mestre Cid diz: “Pô mestre o senhor pode ir embora daqui pra qualquer lugar do mundo, que você com o seu berimbau, você encanta e já não é uma coisa que eu tenha facilidade pra fazer” nessa época o Mestre Cid ainda tava apanhando pra tocar um berimbau e tinha essa dificuldade, e tem uma coisa, fez cantadores melhores que os meus, sem cantar, só encantando. Então eu peguei o meu berimbau e criei a Companhia de Capoeira Contemporânea e uma frase muito simples “Mestre não precisa de aluno, aluno é que precisa de Mestre, porque eu faço alunos”. Fiquei com a Companhia, tava muito legal, trabalhando nas escolas, Cirandinha, Aquafish, montei minha academia aqui na minha casa, tava na academia Raia, Saquarema. Em um ano e pouco eu já reestruturei meu trabalho. Aí surgiu uma ideia de ir pra Portugal, eu me mandei pra Portugal. Em Portugal hoje, a Companhia ta muito legal, eu faço um evento lá chamado Meeting internacional de capoeira, que é um dos grandes eventos de Portugal, em 2003 eu fiz um evento levei o Mestre Arthur Emídio, Mestre Mintirinha, Mestre Alcion, levei o Dinho nascimento, músico e Mestre Marinaldo e nesse evento tiveram 1000 capoeiras inscritos, três dias de capoeira comendo solta. Pra quem pegou um ônibus daqui pra Porto Alegre, pra roda do Mestre Nino, jogar na roda, ir à festa e depois pegar um ônibus de volta pro Rio, andar pela Europa é tranquilo.

(Maíra Gomes) - Quem o formou Mestre?

(M.Batata)  Na verdade ninguém me formou mestre. Não se forma um mestre de capoeira. As pessoas dão o direito a alguém ser reconhecido como mestre de capoeira. Por que essa história de mestre de capoeira é muito complicada, porque até 1972, não existia nenhum sistema de graduação. Em 1972 foi quando o Mestre Mendonça criou o primeiro sistema de graduação. Então antigamente as pessoas eram mestres porque chegavam na roda e se garantiam e tinham uma maestria. Então esse negócio de título de mestre começou de 72 pra cá, tanto que tem muito mestre que pegou corda de mestre com 3, 4 anos de capoeira e hoje em dia demora 30 anos pra dar o direito de alguém ser reconhecido como mestre. Então um mestre de capoeira ninguém forma. Um mestre de capoeira é combustão espontânea. Você vira mestre de capoeira se você for dar aula ali no Barreto, morar do lado de uma padaria e todo dia passar com a roupa de capoeira. O padeiro vai falar “Lá ta indo o mestre de capoeira”. Então quando eu peguei a minha corda de mestre, que não era nem corda era um cordel branco e verde, o Rio de Janeiro teve uma banca de mestres e eu tive uma nota muito legal, 9.9 da banca. Então acontece que quando eu peguei a minha graduação de mestre eu só tinha 10 anos de capoeira. Eu com três anos de capoeira eu comecei a dar aula de capoeira. E quem me indicou pra pegar a corda de mestre, foi o Mestre Alcion e um cara que eu treinei muitos anos com ele que é o Mestre Bogado. Mas que por questões de ideologia eu prefiro deixar ele enterrado nas memórias.

(Maíra Gomes) – Sobre Música. O senhor lançou um vinil, com músicas próprias e de amigos. Anos depois o relançou em CD. Como foi o processo de criação desse trabalho? Foi um trabalho pioneiro nos arranjos, falando-se de música de capoeira?

(M. Batata) – Não, não foi pioneiro. Em 1973 o Mestre Suassuna já tinha lançado um disco chamado “Cordão de ouro”, e o disco dele já tinha esse esquema de harmonia, violão. Eu não fui o primeiro a fazer. O meu trabalho foi um trabalho que na época causou um impacto porque causou, mas eu não fui pioneiro em nada. Só que o disco foi muito legal.

(Maíra Gomes) – Então ao que se deve o sucesso do disco?

(M. Batata) – Sei lá, acho que eu sempre fui muito midiático. Eu andei muito no mundo da capoeira. Quando eu lancei o “Raízes d`África” em 1991 eu já tinha corrido o Brasil inteiro, já tinha sido campeão brasileiro de capoeira, já tinha feito um trabalho de resistência muito grande. Porque o que acontece é o seguinte, eu dentro da capoeira sofri um preconceito por ser playboy. Eu era o branquinho da Zona Sul, que não saia do Subúrbio. Então, ia pras rodas de capoeira, ia pro samba, ia pro morro. Enquanto as pessoas saiam do subúrbio pra ir pra praia, eu saia daqui pra ir pro subúrbio. Eu acho que foi a qualidade das músicas e uma coisa que teve também, esse disco foi gravado só eu e o Mestre Mintirinha E o Mestre Mintirinha é um monstro da música. Porque o que acontece é o seguinte, quando o Mestre Mintirinha foi gravar o disco comigo, foi exatamente na época que tinha aquela novela Pantanal, que agora ta reprisando e a minha ideia quando eu vi aquele velho do rio, foi resgatar a imagem do Mestre Mintirinha e do Mestre Paulão que estavam perdidas. E o trabalho bombou. E eu não sei por que, que eu só gravei duas mil cópias há 16 anos atrás e em qualquer lugar do mundo que eu chego as pessoas conhecem as músicas do disco “Raízes d`África”. E esse disco foi muito legal porque eu já encontrei vários capoeiras que hoje são mestres de capoeira, inclusive um deles é o Mestre Chapão, um capoeira fantástico que tem em Portugal, que é de Pernambuco, que eu o vi cantando e disse “Eu sou seu fã, você canta muito bem” e ele me respondeu “Mestre eu aprendi a cantar ouvindo seu disco”. E isso é muito legal. E por incrível que pareça uma das músicas que mais sucesso do meu disco não é uma música minha. O disco tem uma coisa muito legal, o Mestre Cota, adora a música do Sorvete, que é aquela “Foi num samba de roda, que eu vi minha preta chorar (...)” ele chega “Batata, canta aquela música”. Têm outros que gostam de outras músicas. E a música do Mestre Toni Vargas, eu quando gravei pedi autorização dele para gravar, e o que acontece, eu fiz um arranjo diferente da música do Mestre Toni, se você pegar o Mestre Toni cantando a música do Mestre Pastinha, ele canta de um ritmo, de um jeito, eu canto de outra forma. E a forma que eu cantei eternizou a música do Mestre Toni Vargas, grande poeta inclusive. E a música que pra mim mais fez mais sucesso foi a música do Cícero, e eu acho que o Cícero só fez uma música de capoeira na vida dele, que é aquela “Capoeira é beleza, é tradição (...)” e pegou.
           

(Maíra Gomes) – O senhor tem intenção de lançar um novo trabalho na mesma linha?

(M. Batata)  Eu sou um cara tão perfeccionista, eu sou tão chato, tão chato, tão chato, que eu sou chato comigo mesmo.Eu gostei tanto do trabalho do “Raízes d´África” que cada vez que eu entro pra querer gravar, e você vê só, o disco do “Raízes d´África” ficou muito legal, mas depois de um tempo você vai vendo ele não ficou bom do jeito que eu queria, e eu to sempre querendo gravar. Eu tenho muitas músicas, tenho música pra fazer 10 Cd´s, e se não tiver eu sento no estúdio e faço na hora. Mas eu sou muito chato, muito chato, muito chato e acontece uma coisa, com essa pirataria que acontece hoje em dia, ás vezes eu perco o tesão de botar o disco no mercado, mas eu tenho vontade, de agora por exemplo em 2009, quero lançar um CD e a “Floresta encantada da capoeira”, o livro de crianças que eu escrevi.
                              
(Maíra Gomes) – Eu gostaria que o senhor explicasse sobre o que  fala o livro.

(M. Batata)  Chama-se “A floresta encantada da capoeira”, o que é a floresta encantada da capoeira? Eu quando comecei a trabalhar com crianças, eu vim criando uma metodologia, por falar em trabalho com criança, é super importante eu frisar isso, a primeira pessoa que deu aula pra criança em Niterói fui eu, numa escola chamada Colégio Bethânia. Quando você chegava pra dar aula numa escola as pessoas torciam o nariz. Eu tive um trunfo muito grande, que foi quando eu entrei pra faculdade de Educação física, quando eu bati na porta, eu falei “Sou aluno da universidade Gama filho e sou o Alexandre Batata” E a Maria Ester me atendeu, eu conhecia o filho dela, que era muito meu amigo, que adorava capoeira, ela adorava capoeira, uma pessoa com a visão de educação muito mais a frente, tanto é que o próprio prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira havia estudado na escola, era uma escola da elite. E eu consegui colocar a capoeira no Colégio Bethânia, depois disso todas as outras portas se abriram e nessa época eu criei uma metodologia imitando os animais. Então eu fazia com que as crianças se transformassem em macacos, que era a base da ginga, o tigre que era a base da ginga atrás, fazia uma brincadeira deles fugirem do gavião em que todos faziam a esquiva, eu criei uma metodologia baseada no movimento dos animais e com isso vim escrevendo uma história, comecei em 2000 na casa do Contra mestre Kryptonita em Saquarema, escrevi, coloquei no computador, o computador perdeu tudo, aí escrevi, coloquei num disquete, o disquete pifou, escrevi de novo botei no computador bichou, porque eu tenho um exu cibernético, eu quando chego na frente do computador, aquele troço faz  “Iê parrei” e não funciona, tanto que agora reescrevi de novo o livro e fiz uma manha, mandei pro meu e-mail, porque o meu computador deu boot e eu perdi no computador, sorte é que eu tinha salvo, mandei pro Mestre Cid, pra mãe do Contra mestre Kryptonita, mandei pra Lílian, mandei pro meu irmão, se perder alguém tem. Essa história são umas crianças que encontram um pergaminho e nesse pergaminho eu readaptei a lenda do berimbau, que eu não sei da onde surgiu, nem sei quem me contou, mas sei que existe, que é a lenda de uma menina que caiu na água e quando encontram o corpo dela virou um berimbau, readaptei essa lenda, criei uma história, Harry Porter com Mogli e que é uma leitura que quando você vai lendo de repente você se pega dentro da história, então as crianças vivem as várias aventuras, encontram a mulher barbada, o homem gelo e o resto só lendo o livro.


(Maíra Gomes) – Por falar nisso, como está o processo de finalização dele. E para quando teremos o lançamento?

(M. Batata) – O processo de finalização é mais uma das coisas que eu digo que Papai do céu e São Bento grande gostam de mim. Eu entreguei o texto a um amigo meu que faz banda desenhada, traduzindo, histórias em quadrinho e o cara é muito bom, aí ele disse “Batata eu vou criar as personagens, você passa aqui e vê” e a primeira personagem que eu criei foi o Pedro Bala, porque eu trabalhava num projeto em Portugal com os meninos de rua e tinha um cigano lá, que eu coloquei o apelido dele de Pedro Bala, porque ele era o líder das crianças. E eu trabalhei na peça “Capitães de areia”, então aquela liderança do Pedro Bala ficou, tanto que eu mudei agora ele não é mais Pedro Bala é Pedro Índio, para não dar problema com a personagem do Jorge Amado. E quando o cara desenhou o Pedro índio parecia que ele tinha visto o Pedro Bala que me inspirou na personagem, o moleque é igualzinho. Quando ele fez a Moranguinho, ela vai ser sexy simbol da capoeira. Moranguinho é ruiva de olhos verdes. Tem o Zé Caquinha e o Chico Rolha, são os quatro personagens da história. Eu espero estar fazendo o lançamento em Abril.

(Maíra Gomes) - Fiquei sabendo que o Mestre Paraná deixou uma herança para o Mestre Mintirinha, e que essa herança será dada ao senhor em breve, do que se trata?

(M. Batata)  Isso é o seguinte, é igual a capoeira, é um patrimônio cultural e material. Essa herança que o Mestre Mintirinha disse que o Mestre Paraná me deu é que o Mestre Mintirinha me escreveu uma carta, dizendo que o Mestre Paraná quando colocou um pandeiro na mão dele pra tocar, disse “Meu menino eu vou te ensinar a capoeira, quero que você seja muito bom e você vai ter que passar isso pra alguém” e o mestre nessa carta diz pra mim que eu sou o alguém a quem ele passou que ele tem muito orgulho de mim e de eu defender essa bandeira, eu não sou angoleiro, nem sou Regional, sou capoeirista do Rio de janeiro. Então a capoeira do Rio de janeiro não é angola nem é regional. Não tenho nada contra quem é angola, quem é regional, não tenho nada contra quem é jitsu-capoeira, quem faz capoeira do amor, quem faz soma, quem faz capoeiroterapia, só fico meio “puto” quando os caras dizem que foi alguém quem inventou a hidrocapoeira, porque até isso daí é uma coisinha que... Eu, que fui o primeiro a ter um projeto de hidrocapoeira digo que eu não inventei. E os caras dizem que inventam.

(Maíra Gomes) – Vamos falar de vida pessoal: O senhor é casado? Quantos filhos? Eles seguem na capoeira?

(M. Batata)  Olha eu nem sei se eu sou divorciado, se eu sou casado, eu não tenho a mínima ideia, eu sei que meteram um processo em mim aí.    (Nesse momento a ex-esposa do Mestre interfere e diz, “você é separado”) Sou um sujeito separado atualmente, sou solteiro.(Quando eu insisto na quantidade de filhos ele brinca “Aí você me complica”) Tenho quatro filhos e só o Ícaro segue na capoeira.

 (Maíra Gomes) – O senhor já trabalhou com outras coisas além de capoeira?

(M.Batata) – Já tentei vender material de limpeza ( aos risos) fiquei dois dias no trabalho, mais nada.

* O samba citado por Mestre Batata chama-se “Poder da criação” e é da autoria de João Nogueira e Paulo César Pinheiro.

Espero que tenham gostado. Até uma próxima entrevista!
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Mestre Batata
Email: mestrebatata@hotmail.com
Telefone: (21)82668660

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