domingo, 24 de dezembro de 2017

Entrevista

Mestre Adelmo Lima
Origens do Brasil



Mestre Adelmo se define como uma pessoa simples, mas, durante a pesquisa para essa entrevista, percebi que nada é simples na vida de Adelmo Pereira Lima. 
Nasceu em 15 de julho de 1962, porém, em sua certidão consta que nasceu em 1964. Um erro que ele só descobriu na idade adulta.
Natural de Brasília, Distrito Federal, Mestre Adelmo teve um encontro inusitado com a nossa arte. Digamos que primeiro ele se encantou por seu Mestre e desse encantamento surgiu o amor pela Capoeira. Uma história muito bonita de um  menino que encontrou em seu Mestre o carinho que ele tanto precisava.
Das numerosas reflexões feitas por ele durante essa entrevista, destaco uma que me tocou profundamente: " O 'ser' Mestre é um estado subjetivo que só será substancializado no corpo e na alma do praticante depois de muito tempo de dedicação, estudo e trabalho responsável pela Capoeira." 
Essa frase é um oásis em tempos de vendas de graduação, de pressa para chegar a um lugar que é muito mais subjetivo do que físico, de constantes polêmicas fomentadas pelas redes sociais. E é também uma pequena amostra do que foi essa entrevista.
Boa reflexão a todos!

*A entrevista a seguir foi realizada em Dezembro de 2017 e é inédita e exclusiva do Blog Capoeira de Toda Maneira 

(Maíra Gomes) - Como começou sua história com a Capoeira? 

(Mestre Adelmo) - Aos 12 anos de idade, como qualquer moleque, eu jogava pelada (futebol de rua) e tinha um amigo que estava ingressando no time do infanto-juvenil do Brasília futebol clube, chamado Gilbert. O pai do Gilbert faleceu e isso foi trágico pra ele. O Gilbert sabendo da paixão do pai pela Capoeira resolveu procurar onde tinha uma academia para ingressar e me chamou para ir com ele. Eu particularmente não tinha nenhum interesse na Capoeira, pois, não conhecia bem, quero dizer, não conhecia nada. Não tinha a mínima ideia do que seria Capoeira. Eu tinha uma família desestruturada e sofria de baixa autoestima, pois, os relacionamentos eram conflituosos, não existia violência, nem problemas com drogas, só um vazio nas relações que me fazia sofrer muito. Quando Gilbert encontrou um local que tinha aulas de capoeira me procurou imediatamente. Fomos nós dois em uma segunda-feira, às 17 horas, na QE 22 (Quadra externa) do Guara I (cidade satélite de Brasília, onde morávamos). O local era no fundo de uma casa onde o proprietário, senhor Assis, era fabricante de armas marciais para Taekwondo, Caratê e Kung fu e no fundo da casa construiu uma academia chamada Pequeno Dragão, como homenagem ao Bruce Lee. Eu estava assustado com o ambiente, pois, era diferente de tudo que eu já tinha visto na minha vida. Um corredor lateral dava acesso ao fundo onde tinha aulas de artes marciais. E era o dia de aula de capoeira! Quando chegamos no local fiquei maravilhado com um desenho em gesso do símbolo ying-yang com um dragão serpenteando ao redor dele. Quando de repente olhei para o canto da sala e ele estava lá, um homem negro, de estatura mediana, físico atarracado, olhar vivo, cabelo black power, bigode largo e um sorriso marcante. Ele se aproximou, eu estava paralisado, e sem nenhuma explicação lógica ele se abaixou próximo de nós e fez um carinho com as costas das mãos no meu rosto e me perguntou se eu queria treinar Capoeira. Não sei exatamente o que aconteceu, quando dei por mim eu estava na rua correndo e chorando. Só anos depois pude entender minha reação. Aquele foi o primeiro carinho que lembro ter recebido. Uma emoção diferente, uma mistura de susto e gratidão. O Gilbert ficou treinando, eu não podia treinar porque era vendedor de picolé, tinha que ajudar em casa e não me sobrava nada para pagar as aulas. Mas todo dia de aula eu ia lá só pra ficar olhando pra ele por trás de uma fresta da porta. De lá eu poderia ficar olhando sem ser visto. Um dia ele me flagrou e perguntou se eu queria treinar. Eu nunca gaguejei tanto na minha vida (risos) e disse que sim, que queria treinar. Acho que na verdade eu só queria ficar perto dele. Imediatamente procurei outra ocupação para conseguir o dinheiro pra pagar as aulas. Fui vigiar carros na feira do Guará e a tarde vendia pipas que eu mesmo fazia para conseguir dinheiro para pagar as aulas. Isso foi há 39 anos.

(Maíra Gomes) - Conte um pouco da sua caminhada até a formatura de mestre.

(Mestre Adelmo) - Eu nunca quis ser Mestre, isso é uma posição onde pra mim é claro: o Barto é o Mestre e eu sou o aluno.  
Comecei a perceber o que a Capoeira poderia me oferecer, eu via os outros formados do mestre se transformando em pessoas melhores. E com esta impressão do que via e sentia eu fui acometido com um sentimento muito forte de que a Capoeira era minha responsabilidade. E isso era muito complicado para um adolescente entre os 13 e 14 anos. Naturalmente eu não fazia a mínima ideia de como proteger ou ajudar a Capoeira e, a cada dia, eu ia me afastando dos amigos, não jogava mais bola, nem soltava pipa, a principio pelo preconceitos de muitos, pois, ser capoeirista era sinônimo de marginal e ainda, como se não bastasse isso, sofri muito na família, sendo assim preferi me poupar  e sumir. Era só estudar em escola publica e treinar escutando Lps de samba pra poder treinar em casa quando meus pais não estavam. Ou no mato próximo de casa quando não tinha aulas na escola. Foram anos sozinho e as únicas companhias que eu tinha era o meu Mestre Barto e o Marcão outro aluno do mestre com quem criei laços de amizade que duram a te hoje. O Gilbert só treinou 6 meses, o Marcos parou de treinar depois de uns 5 anos e hoje é cantor de Rap com o GOG, que também participava dos treinos a partir dos anos 80, quando fundei o Origens do Brasil, no CDS – Centro de Desenvolvimento Cultural.
Meu mestre me deu o certificado de formatura em 1996. No entanto, solicitei não usar o título, nem a corda ainda. Em 2002 ele solicitou o evento pra minha formatura definitiva. No dia anterior ele me informou que não poderia vir e que mestre Pombo de Ouro, mestre formado de mestre Bimba na década de 60, e que tive a oportunidade de acompanhá-lo por mais de 20 anos, iria amarrar a corda na minha cintura como meu padrinho ( Mestres Guga, outro formado de Mestre Bimba e Mestre Alcides também são meus padrinhos de formatura). Mestre Barto veio a são Paulo dois anos depois e, após um jogo comigo, consagrou minha graduação. Eu ainda não estava confortável com o título de Mestre, até que em 2012, em Brasília, Mestre Barto me chamou pela primeira fez de Mestre. Isso foi na formatura de outro companheiro de treinos, o Junior Gariba, no evento do mestre Rizomar, no Zoológico de Brasília. O chamado do mestre para mim foi o início de minha conscientização e percebi que minha carreira começou naquele dia. Dez anos após a entrega da corda minha responsabilidade com a Capoeira começou a ter um peso significativo para mim. O peso de que, dali em diante, eu deveria estar melhor preparado para cuidar dela. Esse sentimento é o que me conduz até os dias de hoje. Sou um trabalhador da Capoeira, vivo pra ela, vivo dela e, fundamentalmente,  ela me ajuda a viver melhor.

(Maíra Gomes) - O que motivou a criação do Projeto Cultural Origens do Brasil? 

(Mestre Adelmo) - Na época o Mestre Barto era muito rígido, e é ate hoje, e em 1984 me formei professor, na época corda amarela, e ele relutava em o aluno não dar aulas, hoje eu entendo ele. Pois bem, aquela minha ânsia e sentimento em ser responsável pela Capoeira falou mais alto e pedi ao mestre autorização e, com alguma relutância, ele permitiu que eu começasse a lecionar Capoeira junto ao Contramestre Magno. A condição era que eu não poderia usar o nome do grupo. Não era o que eu queria mas eu não poderia contradizer meu Mestre. Assim, junto com alguns amigos sentados em reunião falei do meu anseio e pedi algumas sugestões de nomes. Nenhum nome sugerido me estimulou e de repente me veio o nome de ancestralidade e origens. Origens venceu a eleição e foi fundado em 20 de novembro de 1985 em Brasília – DF. Portanto, o “ser” Mestre é um estado subjetivo que só será substancializado no corpo e na alma do praticante depois de muito tempo de dedicação, estudo e trabalho responsável pela Capoeira.

(Maíra Gomes) - O senhor publicou o livro “Capoeira, Um Universo de Inspiração” em 2010, seus textos circulam na internet e fazem muito sucesso. Como foi o processo criativo desse livro?

(Mestre Adelmo) - Esse livro foi o resultado daquele sentimento de ser responsável pela Capoeira que ainda hoje não compreendo muito bem, portanto, prefiro confiar nele. Os textos começaram a “vir”, “me foram dados” a partir de 1980. Muitos outros ainda estão guardados. A minha vida na Capoeira não foi fácil, além do preconceito na família e dos amigos, sofri perseguição na escola e passei fome por muito tempo e acredito que tudo isso foi como um filtro para que eu pudesse ter condições de compreender alguns segredo da Capoeira. Mestre Pombo de Ouro sempre dizia pra mim: “A capoeira é um tesouro desconhecido só revelado a poucos. E cada um só receberá uma parcela deste segredo”. Essas palavras me marcaram a ferro e a fogo. Naturalmente  não compreendo os segredos da capoeira, ninguém tem esse poder, mas procuro me preparar para esse caminho. Assim, vivendo em um redemoinho de sentimentos e expectativas, acabei conseguindo transportar para o papel um pouco do sentimento do SER CAPOEIRA. E intuitivamente os textos vieram, em sua maioria, de uma só vez,  em um só fôlego, como um temporal e imediatamente onde eu começava eles “vinham” e eu precisava  escrever. Caneta e papel eram meus companheiros constantes. E assim produzi uma grande coleção de textos entre 1981 até hoje, os dois últimos, até o momento, em 2016: A elegância do Mestre de Capoeira, narrado por Mestre Angoleiro, formado de Mestre Bimba na Bahia na década de 40 e O Mestre é a semente, que está sendo narrado por Mestre Tabosa, formado de Mestre Arraia, na década de 60, em Brasília. Outros tantos textos estão espalhados no mundo virtual.

(Maíra Gomes) - Em 2016 foi a vez de publicar “Ser Criança é Alegria, a Capoeira Como Eficiente Método Pedagógico”, é uma proposta diferente do livro de 2010, não é mesmo?

(Mestre Adelmo) - Sim, o diferencial deste projeto é o trabalho de campo que executei por 31 anos, 1985 a 2016, experimentando, modificando, ampliando e colhendo resultados nos núcleos de trabalho em Brasília, Recife, Alagoas, Londres e São Paulo. O retorno dos milhares de alunos que passaram por minhas mãos e de seus respectivos familiares, unido a grande massa de capoeiristas que participaram de meus cursos, vivências e palestras em mais de 20 estados do Brasil e países do exterior, foram meu termômetro da eficiência do método, culminando com a publicação da obra em 2016.

(Maíra Gomes) - Ambos os trabalhos vêm com CDs, aliás, o senhor é pioneiro quando falamos de audiolivros de Capoeira. Como surgiu a ideia?

(Mestre Adelmo) - Sim tive a sorte de ser o pioneiro neste tipo de trabalho de áudio livro. A ideia surgir de forma intuitiva e no anseio de dinamizar  e facilitar o acesso aos conteúdos. Usar a tecnologia para o fácil acesso a Capoeira. Em Capoeira um Universo de Inspiração que foi lançado em 2010, no Reino Unido, na versão em inglês, percebi a necessidade das nações que não dominam a língua portuguesa que, pela dificuldade de compreender a escrita poderiam ter acesso aos textos como às músicas de Capoeira. Neste processo fui premiado quando fiz o convite ao Mestre Pinatti. Ele na altura de sua sabedoria e dono de uma das história mais belas e consistentes na Capoeira, aceitou imediatamente e por duas vezes fomos para estúdios para a gravação da narração do livro. A segunda gravação ainda não está disponível ao público, será lançada provavelmente em 2018, junto ao livro nas versões português/inglês e futuramente um DVD com o making off das gravações. 

(Maíra Gomes) - Teremos novos livros? 

(Mestre Adelmo) - Sim! Já está pronto o Papoeira 2000 que é uma transcrição do primeiro Papoeira, termo e evento criado por Mestre Pombo de Outro, formado de Mestre Bimba na década de 60, na Bahia. 
Está em fase de conclusão o Textos e Reflexões, coletânea de frases, A Natureza Mistica da Capoeira e Ensaios de uma Alma Negra no Universo da Roda de Capoeira. Todos sem data de lançamento.

(Maíra Gomes) - O senhor é casado? Tem filhos? Sua família também pratica Capoeira?

(Mestre Adelmo) - Sou e tenho três filhos. O mais velho, Lucas,  mora em Brasília e é dono de padaria. A Catrina, de 23 anos, que mora no Mato grosso e a caçula Sofia, 3 anos, e é a capa de meu segundo livro, Ser Criança é Alegria e treina capoeira, faz dança com minha esposa, que é professora de Dança do Ventre e bailarina.

(Maíra Gomes) - O surgimento de grupos de Capoeira evangélicos tem preocupado muitos capoeiristas e também o movimento negro. Sendo o senhor formado em teologia, o que pensa sobre esse assunto?

 (Mestre Adelmo) - Não vejo perigo, pois, já surgiram tentativas de mudar a essência da Capoeira e foram fracassados. Temporariamente podem até mudar a forma e os rituais, portanto a Capoeira tem o poder de se autorregenerar. Ele é autossustentável e regeneradora. Ela é um organismo vivo que nos conduz e qualquer elemento estranho que invade seu corpo é extirpado mais cedo ou mais tarde. Olhem a historia!!!

(Maíra Gomes) - Além de mestre de Capoeira, teólogo e escritor, o senhor é professor de WON HWA DO, uma arte marcial coreana. Onde o senhor aprendeu e como surgiu o interesse por essa arte?

(Mestre Adelmo) - Fui seminarista dos 27 aos 34 anos de idade. No seminário eu treinava sozinho quase todo dia e veio da China um seminarista que morou na Coreia, Fred, e aprendeu o WON HWA DO (caminho circular), uma arte marcial coreana e ele vendo meu empenho em treinar Capoeira, estando fisicamente preparado, começou a me ensinar até eu estar apto a dar aulas. Cheguei a dar umas aulas só que a Capoeira falou e fala mais alto e abdiquei. Por outro lado, o meu tempo era tomado pelos estudos, viagens e treinos. 

(Maíra Gomes) - Consegue identificar alguma semelhança entre WON HWA DO e a Capoeira, mesmo que filosoficamente? 

(Mestre Adelmo) - Toda arte marcial tem seu código de conduta universal. O corpo se conecta com a mente. A mente é a produtora do corpo e por e através dela o corpo surge e se desenvolve. O espírito é a essência da mente e do coração. O treino, a disciplina, a honradez são atributos da alma que são desenvolvidos na mente através do “sacrificio” do corpo. O jejum, a oração, o treino a meditação trazem a iluminação. Esses são os princípios do WON HWA DO esses são os atributos subjetivos da CAPOEIRA.

(Maíra Gomes) - Com faces tão múltiplas, o que mais tem para saber sobre o Mestre Adelmo?

(Mestre Adelmo) - Sou um cidadão comum, que ama a Capoeira como tantos outros camaradas pelo mundo. Em meus momentos de intimidade adoro me dedicar a família, ao artesanato, leitura e filmes. Simples.

(Maíra Gomes) - Pra finalizar, o senhor está satisfeito com o panorama atual da Capoeira?

(Mestre Adelmo) - Sim.....a Capoeira está onde deve estar, porque é ela que nos conduz.. Se ela é um organismo vivo isso nos diz respeito a ter consciência de si e de seu trajeto na história. Já tivemos a fase de violência, de afirmação e a fase dos desconhecimentos, paralelo a idade média. A era das trevas na Capoeira. Hoje começamos a perceber que a luz esta surgindo e que novos e melhores tempos estão por vir, para o Brasil e para a compreensão de toda a sociedade brasileira sobre sua cultura e isso vai acontecer apesar dos esforços dos que não querem. 



Imagem de arquivo pessoal

terça-feira, 9 de maio de 2017

Como vai o seu coração?

Especialista alerta para a grande exigência cardíaca na prática da Capoeira




Maio de 2013, reunião de mestres no Iphan do Rio de Janeiro, Mestre Camisa discursa sobre o triste fim de alguns mestres, sem assistência médica e muitas vezes na miséria. Ele acaba falando sobre o grande números de capoeiristas que morrem por problemas do coração e uma lâmpada se acende imediatamente na minha cabeça.

Mestre Paraná infartou e morreu aos 49 anos. Mestre leopoldina, aos 74 anos, também faleceu em decorrência de problemas cardíacos. 

Demorou até que eu fosse atrás de uma profissional para esclarecer os fatos. A gota d'água veio mês passado, quando, só no Rio de Janeiro, dois capoeiristas faleceram em decorrência de problemas cardíacos. 

A Cardiologista Rachel Victer ressalta que não há uma relação direta da Capoeira com o infarto, mas, por ser uma atividade de alta performance, o coração acaba trabalhando muito.

A pergunta que eu te faço, caro Capoeirista, é: Estamos negligenciando a nossa saúde e de nossos alunos?

A verdade é que os capoeiristas não se veem como atletas e, por isso, acabam não dando a devida importância aos cuidados com a saúde.

O que é mais comum do que sair de uma roda de Capoeira e se reunir para uma cervejinha, ou um churrasco, ou os dois? Pois é, não estou aqui ditando regras para vida de ninguém, eu mesma sou adepta desses pecadinhos, mas, é importante dizer que maus hábitos alimentares, o consumo de álcool e drogas estão diretamente ligados aos problemas cardíacos.

O Monitor Benny, 28 anos, filho do querido Mestre Bené, foi um dos trágicos casos ocorridos no mês passado. Durante uma roda de Capoeira ele se sentiu mal e faleceu. Em jovens o risco do infarto ser fatal é ainda maior, "O coração jovem tem a circulação colateral ( que são pequenos vasos que ligam as principais artérias do coração) pouco desenvolvida. Isso aumenta o impacto do infarto no coração.", explica a Dra. Rachel. 

É importante esclarecer que nem toda morte súbita é infarto, "Existem outras causas de morte súbita em jovens como morte por arritmia cardíaca, por doença congênita cadíaca, doença da aorta, ruptura de aneurisma cerebral que também podem ser precipitados pelo exercício. Porém, a sociedade tem o hábito de taxar de infarto qualquer morte que ocorra assim, subitamente.", esclareceu a médica.

São fatores de risco para infarto: 


  • Hipertensão; 
  • Diabetes;
  • Colesterol alto;
  • Tabagismo;
  • Sedentarismo;
  • Uso de drogas;
  • Obesidade;
  • Stress;
  • História familiar de infarto ou angina.

Quando devo procurar um cardiologista?

  • Quem não tem história familiar de doença cardíaca: Homens aos 45 anos e mulheres aos 50 anos;
  • Quem tem história familiar de doença cardíaca: Homens aos 30 anos e mulheres aos 40 anos, 
  • Quem apresenta qualquer sintoma como: cansaço, dor no peito, fadiga, ou palpitação, independente da idade, antes de iniciar qualquer atividade física.
E é aí que entra a pesquisa que eu fiz no Facebook no mês passado. Assim como eu, 55,3% dos entrevistados nunca precisou de atestado médico para a prática da Capoeira.


A cardiologista ainda explica que, pelas diretrizes atuais, não é obrigatória a apresentação de atestado médico para a prática de atividades físicas nos casos de pessoas que não possuem histórico de doença cardíaca na família, nem apresentam os sintomas citados (cansaço, dor no peito, fadiga, ou palpitação), no entanto, muitos esportes exigem a apresentação do atestado, o que para ela é importante.

A Prevenção do infarto passa pelo controle dos fatores de risco acima citados, além de acompanhamento cardiológico periódico. Não podemos fechar os olhos para a nossa saúde e, como educadores, precisamos tornar o atestado médico uma exigência para a prática da Capoeira. Só assim evitaremos, ou ao menos diminuiremos, os casos de mau súbito na Capoeira.

Muito obrigada a todos que responderam ao questionário! Agradecimentos especiais à médica que gentilmente nos orientou para a matéria. Bjos, Senhorita!


Dra. Rachel Victer

Pós graduada em Cardiologia pela Universidade Federal Fluminense ( UFF)

Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia

Rua Moreira Cesar 26 sala 1119. Icaraí. Niterói/RJ

Tel: (21) 2719-6616


Ficou interessado no discurso do Mestre Camisa que eu citei? Parte dele está disponível no nosso canal no Youtube, toma aqui um link. Aproveita e se inscreve lá que tem sempre conteúdo de qualidade!

Imagem do Google

quarta-feira, 3 de maio de 2017

União leva a Londres

Mulheraça tem sua primeira edição internacional





Rio de Janeiro - Brasil

Sabe aquela história que nós ouvimos a vida inteira de que a classe feminina é desunida? Pois é, 11 capoeiristas estão provando que a verdade é bem outra, a união faz a força e, nesse caso, leva a Londres.


Tudo começou em 2007, quando a Instrutora Fran, supervisionada pelo Mestre Buiú, Rede Anca, realizou a primeira edição do evento Mulheraça, em Minas Gerais. 

Feito de mulher para mulher, focado na Capoeira e na cultura popular, Mulheraça é um espaço para fazer amigos e trocar conhecimentos, independente de sotaques e bandeiras. 

O sucesso foi tanto que, após sete edições, as últimas três ocorridas em São Paulo, o evento Mulheraça arruma as malas e desembarca em Londres, Inglaterra, para mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser. E quando ela quer, ah, meu amigo, aí ninguém segura.

Uma parceria entre grupos, algo bem pouco usual no meio da Capoeira, permitiu que o Contramestre Hiram, do Club London, levasse o Mulheraça para a Terra da Rainha nos dias 16, 17 e 18 de junho. 


Conheça as integrantes da equipe Mulheraça Brasil

Junto com a edição internacional do evento surgiu a vontade de participar desse momento tão importante e, como nada cai do céu, 11 mulheres de grupos, estados, graduações e idades diferentes foram atrás desse objetivo. São elas:

Mestranda Sinhá - Rede anca - SP
Mestranda Kelly -  Rede anca - MG
Contramestre Sereia - Capoeira Bonfim - SP
Professora Longui - Grupo Candieiro - SP
Instrutora Fran -  Rede Anca - MG
Monitora Jeanne - Capoeira Bonfim - SP
Graduada Borboleta - Casa da Iúna - SP
Graduada Fofa - Capoeira Bonfim - SP
Graduada Navalha - SP
Aluna Goianinha - Capoeira Senzala - SP

A primeira barreira encontrada foi a financeira, mas sabe como é, né, elas deram um jeitinho, se uniram, fizeram rifas, eventos, vaquinha e, mesmo longe do valor total para bancar integralmente a viagem das 11, conseguiram uma boa ajuda para realizar esse sonho.

A busca agora é por uma empresa que abrace a ideia e tope vesti-las durante os três dias. A equipe precisa de um uniforme e a contrapartida é, sem dúvidas, muito bacana. Quer ver a sua marca nos principais pontos turísticos de Londres e ainda ligada a uma iniciativa cultural genuinamente brasileira? Essa é a hora. Entre em contato no e-mail e saiba como participar.

Ah, o evento terá cobertura do Blog Capoeira de Toda Maneira e em nossas redes sociais vocês poderão acompanhar tudo o que rola por lá.

Que venha Junho, que venha Mulheraça!

Imagem de arquivo pessoal




terça-feira, 2 de maio de 2017

Entrevista

Mestre Márcia
Sangue Negro


Márcia José Vieira, Mestre Márcia, nasceu em São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, em 18 de junho de 1962. Ela foi a primeira mulher a receber o título de mestre em sua cidade, um grande feito para quem,  na década de 1980, era uma das poucas meninas a frequentar rodas de Capoeira. 
Mesmo a contragosto de sua mãe e enfrentando o machismo presente na Capoeira, Mestre Márcia seguiu seu caminho, "Durante algum tempo era apenas eu em meu grupo. Me tratavam como uma peça intocável, mas quando eu acertava alguém, o atingido parecia que ia morrer por ter sido atingido por uma mulher.", contou. De posicionamentos bem definidos, Mestre Márcia também faz parte da Liga Gonçalense de Capoeira como tesoureira e é dirigente de uma escola de Samba. Achou pouco? Então vem conhecer a história dela mais de perto.

*A entrevista a seguir foi realizada em Abril de 2017 e é inédita e exclusiva do Blog Capoeira de Toda Maneira 


(Maíra Gomes) - Como a senhora começou na Capoeira?



(Mestre Márcia) - Comecei capoeira em 1980, no grupo Modelo Cultural Kikongo, com o Mestre Machado. Ele afirma que comecei no final de 1978, então, eu tinha 16 ou 17 anos.

(Maíra Gomes) - Sua família reagiu bem, te incentivaram?

(Mestre Márcia) - Minha mãe nunca disse para eu não fazer capoeira, mas não gostava. Nunca assistiu um treino, foi apenas a uma apresentação no teatro porque minhas tias disseram para ela que se elas iriam como tias, porque ela  como minha mãe não? Nunca esteve no espaço onde dou aula desde 1988 (minha mãe em memória). Tive o apoio de todos os meus irmãos, somos 10, só eu fazia capoeira até eu começar a dar aula. Hoje tenho vários sobrinhos, primos e etc. Nem todos comigo treinam comigo.

(Maíra Gomes) - Como foi sua caminhada até a fundação da Associação Sangue Negro?

(Mestre Márcia) - Não foi fácil. Durante algum tempo era apenas eu em meu grupo. Me tratavam como uma peça intocável, mas quando eu acertava alguém, o atingido parecia que ia morrer por ter sido atingido por uma mulher. Aí finalmente surgiu outra, juntas fomos ganhando espaço e os rapazes devagar começaram a aceitar mais quando eram atingidos. Isso dentro do meu grupo, mas nem sempre. Em roda fora baixava o desespero nos mestres quando eu atingia seus alunos. Era difícil admitir que a única mulher na roda poderia atingir um dos machões. Foi bastante tempo de só eu em rodas, dificilmente apareciam outras, mas sobrevivi. As coisas hoje não mudaram muito, os homens ainda acham absurdo ser atingido por mulher, muitas vezes é um deus nos acuda.

(Maíra Gomes) - A senhora foi a primeira mulher a ser formada mestre em São Gonçalo, um grande incentivo para outras mulheres, tendo a senhora como espelho, uma referência. Quem foi a sua referência feminina na Capoeira?

(Mestre Márcia) - Vi apenas três mulheres na primeira vez que vi uma roda de capoeira. Não chegou a ser uma referência, pois, não foram elas que me levaram a praticar capoeira, nem tive contato com elas. Raramente as vejo, uma até parou. Mas com certeza sou a referência de muitas mulheres.

(Maíra Gomes) - Porque decidiu fundar um grupo?

(Mestre Márcia) - Passei 7 anos na Kikongo. Saí de lá professora. Tive problemas com o meu mestre, o que me rendeu uma expulsão. Para não parar eu fui incentivada por amigos que queriam treinar comigo. Comecei a dar aula, fui parar em um grupo, ficando pouco mais de dois meses. Assim cheguei ao Mestre Chita, que tinha o grupo "Filhos de Omulú". Surgiram outros problemas, meus alunos eram na maioria de famílias católicas, então, conversei com o Mestre Chita e assim, numa  gincana entre meus alunos, surgiu o nome "Sangue Negro". Tenho o apoio até hoje do Mestre Chita e do mestre que me expulsou, Mestre Machado.

(Maíra Gomes) - Qual foi o maior desafio nesses anos de capoeira em um ambiente majoritariamente masculino, sentiu algum tipo de preconceito? 

(Mestre Márcia) -  O preconceito sobre a mulher capoeirista é demais. Meus alunos são cantados a todo momento e sempre escutavam "Vai ficar treinando com mulher". Recentemente tive um mal estar com um mestre, pois um rapaz que treinava com ele resolveu treinar comigo. Nossa, ele perdeu a compostura, ficou feia a coisa. Venho passando por situações assim desde que comecei a dar aula. É "osso", só gostando muito mesmo!

(Maíra Gomes) - O que a senhora pensa sobre os diversos sistemas de graduação existentes da capoeira? A graduação deveria ser padronizada para todos os grupos? 

(Mestre Márcia) - Eu gostaria que todos tivéssemos o mesmo sistema de graduação. Acho que enquanto isso não mudar, as pessoas que não se importam com a Capoeira vão continuar desvalorizando este esporte tão bonito e as autoridades chamando de bagunça. Eu uso o sistema da Confederação, colocando algumas pontas para ganhar tempo com os alunos.

(Maíra Gomes) - O que influencia mais na permanência da mulher na capoeira?

(Mestre Márcia) - As mulheres se entregam a Capoeira quando estão sozinhas, sem marido, namorado, nenhum relacionamento. Ou entram para a Capoeira exatamente para conquistar alguém. Por mais que gostem, acabam se afastando por começarem a ter problemas em sua relação, assim a Capoeira normalmente perde. Claro, existem exceções.

(Maíra Gomes) - A senhora é tesoureira da Liga Gonçalense de Capoeira. Como surgiu o convite para fazer parte da Liga?

(Mestre Márcia) - Eu sempre tive o convite para fazer parte da Liga, mas não queria. Apenas nesta gestão resolvi participar, mas já penso em sair. São muitos problemas e nada de verbas. Sem verbas, sem trabalho, mas os problemas surgem, não vale a pena tantas perturbações. 


(Maíra Gomes) - Qual a sua principal característica como educadora?

(Mestre Márcia) - As crianças costumam gostar de mim. Eu sou de tudo um pouco, canto, brinco, danço, conto da história, toco pandeiro, berimbau, atabaque, me divirto com eles. Porém, elas brigam, batem uma nas outras, mordem, sobem nas coisas, entre outras coisas que acontecem, aí Tia Márcia briga, as vezes coloca sentadinhas, mas não demora estamos nos beijando, nos abraçando, assim tudo é festa. Nos piores momentos da minha vida, entre elas a morte de minha mãe, foram eles que me ajudaram a superar, acho até que evitaram a minha depressão.

(Maíra Gomes) - Queria que a senhora contasse um pouco sobre a sua relação com o Carnaval:

(Mestre Márcia) - Eu sou dirigente de uma Escola de Samba, a G.R.E.S. Arco Íris do Boaçu, que é dirigida por sete mulheres, eu e mais 6 irmãs. É uma adrenalina gostosa colocar a escola na avenida, não tenho explicação. O que a Capoeira e o carnaval tem em comum? A alegria e o fato de eu não conseguir ficar longe dos dois.

Contato

Imagem de arquivo pessoal

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Entrevista

MESTRE CLEIDE

Grupo Terra



Maria Cleide Tomaz Duarte nasceu em 28 de agosto de 1968, no Ceará, mas foi no Rio de Janeiro que encontrou sua morada ainda criança. 
Mestre Cleide fundou o Grupo Terra junto com seu Mestre e marido, Mestre Mintirinha.
Desde 94 na Capoeira, a mestre acredita no sistema de graduação criado por Mestre Mendonça como uma forma de organização, "Não me vejo no direito de bagunçar o que está direito.", contou.
Apesar de já ter enfrentado situações no mínimo desrespeitosas por ser mulher num ambiente majoritariamente masculino, Mestre Cleide acredita na delicadeza como arma para dissolver situações discriminatórias e foi assim, com toda a delicadeza que lhe sobra, que ela nos acolheu desde o primeiro contato, gentil e disposta.

*A entrevista a seguir foi realizada em Abril de 2017 e é inédita e exclusiva do Blog Capoeira de Toda Maneira

(Maíra Gomes) – Como a senhora começou na Capoeira?

(Mestre Cleide) – Vi uma apresentação na rua e gostei. Procurei o responsável pelo grupo na época e me matriculei. Treinei por um ano, peguei a primeira graduação. Mestre Mintirinha foi meu padrinho, nos conhecemos nesse grupo.

(Maíra Gomes) – Há alguns anos, quando entrevistei o Mestre Mintirinha aqui para o blog, ele me contou que quando vocês se conheceram eram de grupos diferentes e que ao ficarem juntos decidiram criar o Grupo Terra. Foi isso mesmo? Conta como foi essa decisão e o que influenciou na sua trajetória como Capoeirista.

(Mestre Cleide) – O “Mintirinha” tinha um desenho de um tronco em forma de berimbau e me disse que queria fundar um grupo chamado Terra e que deveria ter aquele símbolo. Gostei do desenho, gostei dele e nos conhecemos melhor. No ano de 94 fundamos o Grupo Terra e nos casamos.

(Maíra Gomes) – Como foi sua caminhada até a fundação do Grupo Terra?

(Mestre Cleide) – Comecei em 92 depois de ter visto uma apresentação na rua. Fiquei encantada e fui buscar onde era aquele grupo. Me matriculei e comecei a treinar lá por um ano. Tive um desentendimento com outra integrante do grupo, saí e fui treinar em outro grupo, mas fiquei pouco tempo, pois, logo Mintirinha e eu inauguramos o Terra. Então, todas as outras graduações vieram do Mestre Mintirinha.
Em 2010 recebi minha graduação de mestre. Na verdade, relutei um pouco, pois eu não tinha a intenção de chegar a tanto. Sempre pratiquei capoeira por gostar mesmo dos toques, da ginga e todo o conjunto, não por graduação. Eu as recebia pelo tempo que tinha e pela dedicação. Desde quando era cordel amarelo já ensinava as crianças do grupo e até hoje esta responsabilidade é minha – Ninguém quer essa responsabilidade, dizem não terem paciência –. O Grupo Terra foi fundado em 94, hoje temos mais ou menos uns dez mestres formados, três filiais e diversos alunos já passaram por nosso grupo. Espero que continuemos com esse trabalho. Enquanto eu tiver forças e conseguir gingar vou tentando. Quando não der mais, sigo cantando!

(Maíra Gomes) – A senhora acha que as graduações da Capoeira deveriam ser padronizadas para todos os grupos?

(Mestre Cleide) – Sim. As outras lutas que seguem graduação, são únicas, porque na capoeira deve ser diferente? Eu uso a graduação de cordéis nas cores do Brasil. A mesma que foi criada por Mestre Mendonça, falecido a pouco. Mas cada um faz o que bem entende. Para mim é uma pena, pois, assim perde-se a organização, que não temos. Fica difícil identificar um mestre que usa graduação diferente. Se fosse padrão, não teríamos essa dificuldade. Cada um deve ter seu motivo para criar suas graduações, mas continuarei com a que uso desde quando iniciei na capoeira, por respeito ao trabalho daqueles que trabalharam para padronizar as graduações. Não me vejo no direito de bagunçar o que está direito.

(Maíra Gomes) – A senhora trabalha com Capoeira, tem outra ocupação?

(Mestre Cleide) – Sou pedagoga, trabalho em um colégio que tem da educação infantil até o terceiro ano do ensino médio. Sou auxiliar de coordenação. E, as terças e quintas, dou aula para as crianças no Grupo Terra.

(Maíra Gomes) – O que o título de mestre significa para a senhora?

(Mestre Cleide) – O título significa para mim uma conquista. Anos de dedicação a essa arte que tanto amo praticar. Significa ser exemplo, respeitar as diferenças e fazer a diferença na vida de alguém.

(Maíra Gomes) – A Capoeira tem muito mais homens mestres do que mulheres nessa mesma graduação. O que a senhora acha que é possível fazer para incentivar a permanência da mulher na capoeira?

(Mestre Cleide) – Nós estamos conquistando nosso espaço nas artes marciais com mais rapidez agora. Hoje se vê muitas mestres, fico feliz com esse avanço. Somos tão boas quanto qualquer homem.

(Maíra Gomes) – A senhora já enfrentou algum tipo de discriminação por ser mulher dentro da Capoeira? Se sim, como lidou com isso?

(Mestre Cleide) – Sim, já tomaram o berimbau da minha mão. Já esqueceram de me apresentar como mestre, pois estava em uma roda que só tinha mestres homens. Mas levo sem problemas. Vou conquistando meu espaço com meu jeito delicado, sem brigar, vou em uma roda, peço para tocar um instrumento, entro na roda jogo sem atacar ninguém. Procuro fazer amigos, sempre fui assim. Nunca gostei de estragar roda de ninguém, para ninguém estragar a minha.

(Maíra Gomes) – Qual a sua visão sobre a Capoeira hoje e como espera que ela esteja em 20 anos?


(Mestre Cleide) – A capoeira está sofrendo muito rápido transformações. Muitas graduações, muitos mestres, atletas muito bem preparados, mas perdeu um pouco os momentos em que ia-se visitar um amigo em sua roda, onde nós íamos para jogar capoeira, sem rivalidade, para trocar ideias, ouvir os mestres mais velhos. Hoje tem roda de mês é um quebra-quebra, todo mundo querendo matar todo mundo. Não tenho mais idade para trocar socos com ninguém. Prefiro hoje ficar em meu canto. Todos os sábados fazemos roda. Todos que quiserem podem aparecer, mas para jogar capoeira, quem quiser brigar que vá procurar outro lugar. Zelamos pela integridade física dos nossos alunos.


Imagem de arquivo pessoal

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A palavra do Mestre - Graduações - Parte 4



Mais uma semana e mais seis mestres opinam aqui no Blog sobre as graduações. Nas semanas anteriores tivemos a opinião do Mestre Alexandre Batata, na parte 1. Na  parte 2 opinaram Mestre Goioerê, Mestre Linguiça, Mestre Preguiça, Mestre Cid , Mestre Ron e Mestre Kaco. Semana passada, na parte 3, foi a vez dos mestres Catitu, Chacal, Caçapa, Namorado, Buiu e Franja falarem sobre o tema. Hoje tem  alguns trechos de entrevistas antigas e também opiniões recentes, vamos conferir?


Mestre Gato – Senzala


"Sou de opinião de que as escolas de Capoeira são como escolas de samba, cada uma tem seu sistema e essa liberdade deve permanecer. É uma arte popular, não deve ser padronizada."*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Maio de 2013. Íntegra da entrevista aqui.






Mestre Polaco – São Bento Pequeno


"Na minha opinião é perfeitamente viável uma graduação única na capoeira, basta boa vontade, humildade e consenso entre as correntes(corda e cordel)."*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Abril de 2012. Íntegra da entrevista aqui.




Mestre Celso – Engenho da Rainha


"A Federação criou o cordel e foram chamadas pessoas de outros grupos, que moravam na Zona Sul, para participar das reuniões. Eles foram, mas resolveram sair fora e criaram a corda. O capoeirista é vaidoso, ele é mentiroso, ele tem vários defeitos.
O aluno não tem capacidade pra determinadas coisas, aí ele sai do grupo e sem condição de ensinar, sem nada ele monta seu próprio grupo e de repente ele inventa uma moda nova. Daqui a pouco nem corda, nem cordel, vão usar barbante. E tudo que ele faz, faz pra desmoralizar a própria capoeira. Por isso a capoeira não está organizada. Eu tenho viajado o mundo todo, o cara sai daqui do Brasil é aluno e lá fora ele bota uma graduação. Pra organizar a capoeira eu acho que tinha que ser gente de fora, que gosta, mas que não treina, não participa. Porque senão cada um defende o seu interesse e fica difícil organizar."*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Maio de 2011. Íntegra da entrevista aqui.





Mestre Boneco – Capoeira Brasil


"Acho sim, muito importante que todos os grupo venham um dia a ter uma única graduação. Só que e um trabalho muito delicado, pois todos nos teríamos que ceder de uma forma ou de outra!"*

*Trecho retirado de entrevista concedida ao Blog em Abril de 2011. Íntegra da entrevista aqui.







Mestre Cobra Coral – Capoeira Terranossa

"Acredito que as cordas profissionais deveriam ser sim padronizadas em uma cor única, melhorando assim a identificação em nível mundial. Já as graduações infantis e as graduações adultas, até a última corda antes de graduado, poderiam ficar a critério de cada escola com seu próprio sistema interno. Mas de Graduado em diante, que já é considerado um profissional de Capoeira, sim, todas as graduações (Cordas), profissionais deveriam ser unificadas e padronizadas em uma única cor e um único entendimento em nível mundial."




Mestre Cid – Afro Angola Congo Capoeira

"Até acho que deveria ser padronizado, mas vejo isso como um fato histórico, já que vieram africanos escravizados de diversas partes da África, de etnias diferentes. Então, era a forma que foi encontrada de misturar africanos de etnias diferentes, falando dialetos diferentes até para causar o não entendimento entre eles. Era a estratégia que eles usavam, para poder matar a raiz do africano aqui. Então, a gente tem que aceitar porque são escravizados que vieram de etnias diferentes, de lugares diferentes, falando dialetos diferentes, por isso essa confusão de cores e graduações.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A palavra do Mestre - Graduações - Parte 3



Hoje nós temos a terceira parte da série sobre graduações que começamos aqui no Blog. Caso você tenha perdido, na Parte 1 o Mestre Alexandre Batata deu uma verdadeira aula sobre as graduações na Capoeira, desde os primórdios até os dias de hoje. Já na Parte 2 , temos a opinião de 6 grandes mestres sobre o tema.

Vamos lá?




Mestre Catitu – Herança Cultural

"Desde que me conheço como capoeira ouço falar em unificação e padronização no sistema de graduação. 
Na minha visão seria muito importante e interessante a padronização única da graduação, mas, por outro lado, vejo que a capoeira é muito mais forte do que qualquer tipo de padrão imposto!
Sua diversidade, raízes e tradições se entrelaçam e isso acaba sendo muito mais forte de que qualquer coisa imposta.
O que me deixa triste é a criação exacerbada, sem origem e fundamento nas graduações que vem surgindo a cada dia!"








A imagem pode conter: 1 pessoaMestre Chacal – UBADAC

"Na minha opinião tinha que existir apenas dois sistemas de graduação: corda, do sistema mais antigo, que é a senzala e cordel, do sistema do Mestre Mendonça. Mas o que acontece é que cada grupo que é montado com pessoas desqualificadas inventa uma graduação, porque não pode seguir o sistema que já existe porque vai ser criticado. O cara sai de um grupo corda azul de graduado e quando encontramos ele novamente ele está com uma corda, exemplo, roxa e laranja, aí fala que é a corda de professor do grupo dele, porque se ele colocar marrom a galera vai criticar e a roxa e laranja ninguém entende e sabe o que é, aí ele passa batido nas rodas. Esse é o meu ver.
Enquanto alguns, veja bem, alguns Mestres antigos apoiarem esses meninos que ficam sem Mestres porque não querem seguir uma orientação e acham que sabem tudo, a Capoeira vai ficar essa bagunça. Cada menino que sai do seu grupo, monta um grupo, cria uma graduação maluca e tem um Mestre que vai lá e apoia.
Hoje chego nas rodas e não sei mais quem é Mestre e quem é aluno, porque em um grupo a corda é de Mestre e no outro grupo a mesma corda é de aluno."



Mestre Namorado – Ibamolé Capoeira

"Eu acho esse assunto polêmico. Assim como a própria história da Capoeira tem suas “vertentes ou versões”, as tradições regionais  (angola, regional, capoeiragem) desde seu início existiram caminhos diferentes, maneiras, hierarquias, heranças culturais e pontos de vistas variados. Como unificar, padronizar as graduações? Quem cederia? Dos milhares de grupos, qual tem razão e por que? A Senzala vai mudar sua graduação, Muzenza, Abadá, Capoeira Brasil, quem daria o braço a torcer? 
Teria que existir um grande congresso, com seminários, palestras, muita resenha, historiadores respeitados, líderes da Capoeira, estudiosos, um grande debate teria que ocorrer. Aqui é Brasil, todos querem priorizar seus próprios interesses, crenças, ideais. 
A Capoeira é rica, vasta, possui contextos lúdicos, pedagógicos, culturais, esportivos, eu, particularmente cederia a uma grande mudança, verdadeiramente discutida e votada pela  “tribo” da Capoeira. Uma decisão dessas engloba existir uma grande federação, associações sérias e preparadas, coisas distantes. A Capoeira é a cara do Brasil, cheia de jeitinhos, política, apadrinhamentos, interesses diversos, corrupção e etc. 
Não vejo tão cedo existir a tal unificação. A vaidade é mais um contratempo."


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Mestre Buiu – Rede Anca


"Na minha opinião deveria sim, com certeza. Como forma de respeito a nossa arte, como ética esportiva, para que nossa arte tenha um pouco mais de respeito nos seus fundamentos, deveria. Penso dessa forma, as graduações devem ser unificada sim para um bem maior de toda a massa capoeirista."





Mestre Caçapa – Capoeira Terranossa

"Hoje na Capoeira tem muita gente querendo ter sem poder e gente dando sem ter. Banalização total da Capoeira e de seus fundamentos. A maioria dos mais antigos apoiam isso e não estão dando valor a sua própria história. Estão apadrinhando grupos, ex-alunos e alunos dos outros, com isso as graduações tomam formas e cores diversas, sem controle. Seria bom um sistema único de graduação, mas, com isso, vem várias outras questões. Resumindo, a Capoeira está perdendo o controle, o dinheiro está falando mais alto, o capoeirista está perdendo o sentimento, o coração já não bate mais como antes. Eu estaria disposto a seguir um padrão universal."



Mestre Franja – Rede Anca

"Essa variedade de graduações que tem na Capoeira é bem característico. Só capoeirista que consegue entender esses sistemas e leva tempo para você aprender. Como somos diferentes das outras artes, não tem nada de parecido com a Capoeira nas outras artes, as pessoas acabam entendendo que é uma coisa pejorativa e, na realidade, eu acho até bom, porque só consegue entender essa variedade quem é da Capoeira há muito tempo, que se dedica e realmente quer entender a Capoeira. Não vejo problema nenhum, pelo contrário, acho isso bacana, não acho pejorativo. Cada um tem a liberdade de usar a graduação que quer. Perante as outras lutas somos novos ainda, não dá para comparar. A Capoeira tem uma organização diferente, começa pela roda, pela musicalidade, não dá pra ficar comparando. Geralmente quem fala sobre esse monte de graduações compara com outras lutas, que possuem uma só graduação. Muitos querem que tenha um sistema só, mas eu acho que como a Capoeira, ela não é de uma pessoa só, não é só de uma maneira, ela tem a cara do brasileiro, somos diversos.
Não entendo no que vai melhorar a Capoeira em ter um sistema único de graduação ou se eliminar a graduação. Quando você unifica, ou padroniza, a Capoeira perde muito com isso. A Capoeira foi feita como uma luta de libertação, é livre, é liberta, a Capoeira é para se libertar e no momento que você padroniza ou unifica só em um sistema a gente está cortando todas as vantagens que a Capoeira tem sobre as outras artes. Eu não gostaria que acontecesse isso nunca na Capoeira. Talvez eles pensem que unificando a graduação seria uma maneira de organizar a Capoeira e eu não acredito nessa ideia. A Capoeira tem uma organização única e exclusiva dela, que não dá pra gente comparar com as outras. Então, unificar, colocar regra, ou um único sistema, a gente como capoeirista vai perder muito com isso e não vai somar nada para que a Capoeira se torne mais do que ela é. Isso não significa que não devamos nos organizar. Organizar não quer dizer padronizar, nem unificar, significa melhorar o que já existe, ou dar novos rumos para aquilo que já existe, que é a Capoeira. Lembrando que essa é a minha opinião e não a da Rede Anca, dentro da instituição também temos esse conflito, uns querem, outros não."



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